A soberania da crueldade
- 5 de jun.
- 22 min de leitura
Texto escrito em 2026 por Arnaldo Chuster [1]
O título da minha apresentação - e alguns pontos do trabalho de hoje - são provenientes de uma rápida conversa que tive com Jaques Derrida, por ocasião dos Estados Gerais da Psicanálise, 8-11 de julho de 2000, no anfiteatro da Sorbonne em Paris. Na ocasião, ele apresentou o trabalho Estados da alma da psicanálise, o impossível para além da soberana crueldade [2].
Para esse mesmo evento [3] escrevi o trabalho Ética e Instituições (Chuster, 2000), que trata de duas formas de ética em confronto, descrito por C. Castoriadis em diversas publicações [4]: a ética do poder e a ética da autonomia. Procurei salientar a incompatibilidade da primeira com a psicanálise, e afirmei a segunda como a ética necessária ao processo.
Este trabalho foi encaminhado ao Dr. André Green, que gentilmente me respondeu com comentários sucintos, os quais também serão compartilhados nesta ocasião.
Derrida me apontou que a ética da autonomia constitui exatamente a dimensão oposta à crueldade, sendo esta última uma consequência inevitável da ética do poder. Na ocasião eu ainda não percebera a importância de trabalhar com essas questões dentro de uma perspectiva simétrica (Bion 1962a, 1962b, 1965, 1975), pensamento que atualmente faz parte da minha forma de pensar e trabalhar os fenômenos psíquicos.
O conceito de Soberania [5], significa originariamente o poder supremo, absoluto e independente de um Estado para exercer autoridade política, jurídica e administrativa dentro de seu próprio território sem interferências externas.
A vinculação do termo soberania à questão da crueldade como elemento do funcionamento mental, constitui uma metáfora que indica a total falta de possibilidades de contenção por meio de qualquer forma de Razão. Uma metáfora, vale a pena destacar, pode coletar dados inesperados, mas pode servir também como falácia.
As únicas ações que poderiam deter a soberania da crueldade seriam a auto extinção por exaustão, ou por extinção do objeto ao qual se dirige a crueldade, ou por uma forma oposta de soberania simetricamente equivalente. Mas, até que ponto a ética da autonomia é capaz de ser soberana a ponto de se contrapor à soberania da crueldade?
Penso que talvez consiga apenas em parte indeterminada, combatendo uma das produções da crueldade que é a ética do poder. O assunto requer mais reflexões, que vou continuar expondo.
A complexidade conceitual [6] das duas expressões da ética, certamente constitui um desafio significativo para ser explorado e desenvolvido. A multiplicidade de vértices a serem observados compara-se com um vale [7], em que os limites são as montanhas. E, onde há montanhas, existem ladeiras - a maioria delas escorregadias e traiçoeiras.
Deste modo, o número de questões surgidas na oposição da soberania da crueldade à hipotética e metafórica soberania da ética da autonomia é enorme, e depende de muitos fatores, a começar da Educação, no sentido pleno do termo, e do seu alcance ético dentro de uma sociedade.
De acordo com Castoriadis [8], seria necessário construir uma sociedade autônoma que garantisse que a Educação tivesse esse empenho ético acima de tudo. Umberto Eco [9] tem essa mesma opinião. E, vale ressaltar, ético tem mais a ver com o aumento da capacidade para pensar do que de qualquer conhecimento especializado.
Para o psicanalista, o desafio transcende as questões educacionais, situando-se na capacidade de acessar o inconsciente de modo eficaz na abordagem das origens da crueldade no âmbito individual. No entanto, é relevante considerar as implicações desse trabalho em uma sociedade ou cultura que, de maneira paradoxal, apresenta resistência ao processo psicanalítico em diferentes níveis.
De acordo com Green [10], uma ética da autonomia é utopia, a começar pela série de deficiências graves (talvez, insolúveis) do papel da Educação em todo o mundo, ao ficarem associadas com questões de fundamentalismo religioso e fanatismo político (que geram diversos impasses na revelação e contenção do fenômeno da crueldade - porquanto serem instituições que se mantém pela crueldade que exercem, e pela falsidade ideológica de que desejam o Bem).
Além desse viés, destacam-se as questões inerentes ao contínuo desenvolvimento da psicanálise, que deveriam ter sido abordadas no evento realizado na Sorbonne [11]. Em síntese, a escolha permanece necessária para o campo psicanalítico, mantendo-se em debate o tema das raízes inconscientes da crueldade em simultaneidade à proposta de uma ética da autonomia.
O desenvolvimento de uma ética da autonomia está intrinsecamente ligado à responsabilidade assumida pela psicanálise, especialmente pelo analista, que é o principal responsável pela credibilidade atribuída a essa abordagem. Diferentemente de outras formas terapêuticas, a psicanálise distingue-se por enfrentar aspectos sombrios da psique humana, promovendo a reflexão sobre as manifestações do ódio e da destrutividade. Esse assunto foi trabalhado por mim, em parceria com Renato Trachtenberg no livro As Sete Invejas Capitais: um estudo contemporâneo sobre a complexidade do Mal (Artmed, 2011).
Roudinesco, E. [12], que também estava presente no evento, tem se empenhado em denunciar esse lado sombrio do ser humano em muitas obras. Ela é explícita em apontar as perversões como expressão maior da crueldade, colocando de uma forma muito criativa questões desenvolvidas por Freud, Klein, Nacht, Green e Lacan.
A questão do ódio é frequentemente abordada de maneira clara e consistente na clínica, enquanto a crueldade nem sempre parece ser explicitada com igual frequência ou precisão. Assim coloca-se a análise do ódio como responsabilidade do analista em mostrá-lo sistematicamente, mas, será que se coloca a análise da crueldade como sendo da mesma ordem de responsabilidade?
Note-se que estou colocando os dois fenômenos separados, embora muitas vezes a crueldade se expressa com e através do ódio, e vice-versa, mas, também pode se expressar sem que haja ódio presente. Na realidade, temos diversos exemplos de expressão sem sentimentos, seguindo uma lógica que foi muito bem colocada por Shakespeare, em Ricardo III:
“Mesmo a mais cruel das bestas sempre exibe um laivo de compaixão. Besta não sou, portanto, compaixão não tenho”. [13] [14]A ausência de envolvimento emocional e a lógica burocrática foi um dos aspectos que surpreendeu Hanna Arendt ao entrevistar o carrasco nazista Adolf Eichmann. Ele afirmou que sua função era meramente administrativa, comparando a gestão do campo à administração de uma fábrica, independentemente de seu produto. No entanto, era sabidamente uma fábrica de mortos, e que usava uma linguagem no portão de entrada com características positivistas para dar as boas-vindas: “o trabalho liberta”.
Note-se a linguagem a serviço simultaneamente da violência, aparelhamento do Estado, hipocrisia, cinismo vulgar, mentira e simulacro, todos criados para atender um projeto político cuja característica principal foi exatamente a soberania da crueldade.
Quem quiser entender como essa linguagem foi cuidadosamente planejada pelos burocratas nazistas, e se repete nos mínimos detalhes em todas as formas de totalitarismo, pode visitar a exposição permanente do Centro de Documentação de Nuremberg, que fica no prédio que havia sido construído para albergar a sede do Partido Nazista. São sempre os burocratas os que encarnam a operacionalização da crueldade, por sua ferrenha oposição ao movimento e a diversidade da vida.
Uma das distorções preferidas dessa linguagem era atribuir e repetir sem cessar uma característica excessiva na descrição do inimigo. Em todas as comunicações se falava generalizadamente do inimigo. Por exemplo, como “extrema esquerda”, “ingleses colonialistas”, “judeus traidores”, “arte degenerada”. Qualquer pessoa que tivesse um mínimo de desacordo era tratada por essa linguagem hiperbólica, portanto, havia somente transformações projetivas precedendo a alucinose coletiva.
Quando perguntado por que então se maltratava e torturava as pessoas antes de matá-las, Eichmann respondeu friamente, fingindo perplexidade, que se soubesse disso puniria os autores. Surgiu dessa experiência de Arendt em Jerusalém, a expressão a banalidade do Mal que deu título ao seu famoso livro.
A linguagem usada a serviço da crueldade totalitária já havia sido identificada por George Orwell [15], em uma publicação exclusiva sobre esse assunto. O tema voltou a fazer parte do livro “1984”, quando o autor o explorou com metáforas que se tornaram referenciais para qualquer estudo.
Na minha exposição de hoje, penso que as questões até aqui mencionadas podem ser inicialmente colocadas no contexto do vínculo menos H (Bion, 1963). Trata-se de um vínculo complexo que em primeiro lugar sugere o ato de abstração máxima antes de qualquer investigação.
Meltzer [16], considerou esse vínculo como expressão de hipocrisia, mas o termo não faz justiça a complexidade do fenômeno proposto por Bion. Certamente, como colocou Meltzer, que onde termina o ódio não aparece o amor, ou vice-versa, mas, penso que surgem estados de mente muito mais complicados além da hipocrisia. Para começar não podemos isolar o vínculo menos H, pois aparece simultaneamente com os demais vínculos, a saber, menos L e menos K, formando a experiência emocional negativa. Um exemplo dessa indissociabilidade encontramos no artigo Sobre Arrogância (Bion,1957): arrogância (menos K) curiosidade mórbida (menos L), estupidez (menos H).
Penso que precisamos estar sempre expandindo a descrição desses vínculos da experiência emocional, seja ela negativa ou positiva, de forma complexa, ou seja, usando um modelo espectral, aberto, não linear, não diagnóstico, estabelecendo um contínuo de possibilidades interpretativas, regidas pelo Princípio da Incerteza.
Deste modo, coloco a crueldade no vínculo L como sua mais extrema possibilidade, ou sua forma mais primitiva em um espectro, e coloco o masoquismo como a extrema possibilidade espectral do vínculo H. Mas, ambos se relacionam com o vínculo K. Portanto, não se trata do modelo dialético comumente encontrado e derivado da filosofia, mas de um modelo dialógico, ou o desafio de escutá-los simultaneamente.
Derrida [17] (2001), desenvolveu em seu trabalho o discurso filosófico (nada surpreendente se considerarmos sua formação). Todavia, se utilizo a teoria do Pensar de Bion (1962a) posso tomar a questão de Derrida como sendo uma questão da vida, bem colocada pelo filósofo, requerendo uma resposta prática que somente a psicanálise pode dar, e assim transformá-la e pensá-la como uma questão clínica.
Nesse ponto, a questão deixa de ser geral e adquire a singularidade artesanal do caso a caso. Este é um dos limites ou limitações da área de atuação do analista. Sua possibilidade de ação nos fenômenos mentais se encontra restrita a um universo restrito de pessoas. Ficaria uma espécie de esperança de que as ideias gerais da psicanálise produzissem modificações no mundo, como seria o caso das ideias filosóficas. De fato, produziram, mas, muito longe do que seria necessário.
Derrida, pelo vértice filosófico, indaga uma crise da psicanálise como crise mundial. Uma crise de globalização (termo que começava a aparecer na época) que tem especificidades e que não devem ser passageiras, pois não se pode mais falar da psicanálise como ciência europeia ou como humanidade europeia.
Sobre a adjetivação da psicanálise, cabe assinalar que uma delas provem de uma das mais antigas formas de expressão e exercício da crueldade, o antissemitismo nazista, que chamava a psicanálise de “ciência judaica”.
Note-se, mais uma vez, o uso da linguagem para executar três passos (Orwell) desqualificar, criar motivos para excluir e, finalmente, exterminar. Por trás dessa linguagem está a transformação em alucinose, guiada pelas falsas premissas que sustentam a rivalidade com O (realidade psíquica) e crueldade do superego primitivo.
Esses passos cruéis ocorreram em todas as épocas históricas, e continuam ocorrendo sem freios até mesmo onde menos se esperava, como por exemplo, nas Universidades em diversas partes do mundo, pois trata-se de um contexto que expande se estiver tendo apoio do Estado, ou seja, o fator maior que garante legitimidade à soberania da crueldade em instância pública é a ética do poder.
Em suma, qualquer adjetivação vai cruelmente se equivocando enquanto pretende descobrir ou denunciar a origem de uma crise que identifica uma espécie de Mal.
A crise da psicanálise, do ponto de vista da complexidade, não tem exatamente uma origem, e nunca tem fim. A psicanálise, está sempre em crise, pois, em crise ela é crítica e é clínica. É inerente a psicanálise ser praticamente sinônimo de turbulência emocional, fenômeno associado a mudanças catastróficas e/ou transformações de campo.
Na relação dos termos crise, critica e clínica, nos deparamos com um desconhecido enfrentado a todo momento, que provoca uma crise surgida certamente de qualquer onipotência de saber ou achar que se sabe. Por essa razão temos que dizer que é na ausência da ética do poder que encontramos com a autoridade do encontro analítico, ou seja, com uma ética da autonomia.
Ao tentar fazer com que se prevaleça a onipotência do Saber surge a crueldade implícita em toda ética do poder. Autoridade, nesse caso, passa a ser sinônimo de força, e nunca de conhecimento, muito menos de pensamento. Assim, quanto menos se pensa mais estreiteza mental vai se formando e mais crueldade vai sendo exercida. A estreiteza mental logo se transforma em estupidez, que se transforma em curiosidade mórbida_ que é o prazer de ver alguém sofrer ou morrer_ e ambas convergem para fenômeno da arrogância. Nos três elementos, a ética do poder dita as formas de como exercer não somente a crueldade, mas a crueldade com violência pelos canais que estão à disposição.
A ética da autonomia tem origens aristotélicas, e está presente em Freud. Ela nasce exatamente no ponto em que Freud declara que “todo valor ético e pedagógico da psicanálise repousa na atitude de sinceridade” ´[18].
Retomando essa base que une Educação e Ética, procurei descrever o que chamei de barreira de contato ética (Chuster, 2020), cuja metáfora seria o “anjo da guarda” da responsabilidade do psicanalista em seu trabalho.
Aristóteles disse que a Prudência é a mãe de todas as virtudes. As virtudes são características que fornecem sentido a vida das pessoas atuando, no processo de fazer o Bem, ou pelo menos, evitar fazer o Mal. Hipócrates mencionou esse ato como condutor da prática médica: primo non noscere.
Bion, introduz a Prudência como um princípio ético integrador de pensamentos e sentimentos, no terceiro dos três princípios de vida (1979), com os quais sugere um novo paradigma em substituição aos dois princípios de funcionamento mental de Freud.
Essas ideias me sugeriram um argumento circular, que como tal, tem como principal risco tornar-se uma falácia. Porém, se consigo sair desse risco, posso desenvolver no trabalho analítico as raízes aristotélicas da psicanálise em Bion, utilizando de ficção e de imaginação. Ambas libertam a intuição e conduzem para a criação de uma linguagem de alcance psicanalítico. Como se trata de uma linguagem regida pela ética da autonomia só pode ser uma linguagem que surge de uma matriz amorosa (Bion, 1970).
A sinceridade gera palavras de valor, ou palavras de honra, significa, dizer o que de fato quis dizer, sustentar a posição e ser honesto a esse respeito. Os honorários do analista derivam desse aspecto do trabalho.
As palavras de honra geram o caráter do analista, sua capacidade de escutar e conter o que suas palavras provocaram, assim como sustentar sua posição de escuta livre de interferências externas da memória e do desejo.
O caráter gera a coragem suficiente para trabalhar num campo de muita insalubridade e perigos. Assim, requer medo, e requer o diferenciar coragem da atitude destemida.
A coragem vai gerar dois aspectos conectados, a responsabilidade e a compaixão. Compaixão tem o sentido de entender sem julgar, buscar o sentido, e seus desdobramentos são o respeito pela vida e o respeito pela verdade. Ambos se voltam para o início do argumento que é a sinceridade.
A palavra “respeito” deriva do latim respectus. Re (de novo, para trás) e spectere (olhar, observar). Etimologicamente significa olhar de novo ou prestar atenção especial a alguém ou algo.
Se aplico a teoria da complexidade, penso num looping autopoiético, que evolui criando uma base segura que podemos descrever da seguinte forma, sinceridade gera confiança que gera sinceridade, e o resultado dessa interação é um diâmetro que podemos chamar de intimidade psíquica. Essa circularidade é válida para qualquer situação de vida, fazendo valer aqui as ideias de Bion de que uma análise real é vida real.
Focalizemos por um momento o ponto do looping que é a responsabilidade. Quais são os fatores que podem inibi-la e até mesmo destruí-la?
Entendo como o mais significativo e intensa a ação da parte psicótica da personalidade, mais uma vez reforçando a ideia de Bion que sem analisar essa parte o processo analítico não terá nenhuma consequência efetiva (Bion, 1956).
Note-se que como a responsabilidade é um valor central da barreira de contato ética, ao ser atacada, vai impossibilitá-la nos dois sentidos, tornando o processo analítico vulnerável a uma ação comum, superficial, ineficaz.
Temos vários vértices para a clínica do problema. Um deles mostra que ataque a responsabilidade gera incoerência, que gera impaciência onde necessitamos de paciência, daí a incapacidade de se comunicar de forma que traduza o essencial. Esse processo fica visível pelo uso na linguagem de pronomes pessoais sem indicação da pessoa a que se refere, crescem as generalizações e diminuem os detalhes do objeto (ação da identificação projetiva excessiva). Com isso, o sujeito nitidamente vai desparecendo na linguagem, até que a fala fica mutilada (ataques aos vínculos entre as palavras), podendo estender essa mutilação para o corpo (atos auto mutilantes ou somatizações), que sempre terminam em inconsequência (non sequitur), tirando o sentido de viver.
Podemos ver essa mesma questão por outro vértice que se inicia com a capacidade para tolerar o tempo, o que significa tolerar a frustração da espera, que produz a possibilidade de criar espaço mental, que significa lidar com culpa e depressão, ou lidar com o ausente e a falta. Como espaço é o solo da simbolização, surge daí a verbalização, que coloca o indivíduo na posição de responsabilidade da sua expressão do pensamento, sem a qual é impossível navegar com senso comum e se relacionar socialmente.
O vértice das descrições acima segue um espectro que se inicia na capacidade de tolerar a frustração_ como um problema complexo que chamamos de dor psíquica _que gera ódio às fontes dessa dor, indistintamente localizadas como realidade interna e externa, ou seja, o ódio cega e ataca o vínculo entre as duas realidades que é a capacidade para pensar. O ataque a capacidade para pensar gera uma vulnerabilidade que produz o terrível medo do aniquilamento iminente, uma ameaça a sobrevivência física e psíquica que aproxima o Ser de níveis subtalamicos, gerando reações violentas e expressões de terror sem nome ou terror subtalamico, basicamente todas elas alucinatórias.
As defesas que surgem desse ponto primitivo envolvem memorias muito precoces, talvez até pré-natais, foi descrito por Bion como estabelecimento de relações precipitadas e frágeis (1956). Essas relações que foram descritas por Baumann [19] como relações liquidas, evaporam sem deixar traços de sua existência; uma descrição muito significativa da superficialidade dos nossos tempos, atrelados a aplicativos de notícias e informações que no minuto seguinte são esquecidas.
Finalmente, gostaria de assinalar que uma ética da autonomia se propõe a preservar a intuição analítica, que é obviamente especifica a um campo que coloca como uma de suas prioridades atender ao sofrimento psíquico.
Inegavelmente a intuição psicanalítica necessitou da ação imaginativa para formular a prática psicanalítica. Freud encontrou essa ação no mito de Édipo, no qual mais uma vez podemos encontrar simetrias para nossas hipóteses interpretativas.
Green concorda com Bion [20] quando exercitamos nosso entendimento usando a linguagem poética-onírica encontrada nos mitos, mas, particularmente no mito de Édipo, que é o mito fundador da psicanálise, e inigualável em termos de mostrar a realidade humana.
Vejamos algumas possibilidades e a atualidade ou atualização delas.
Édipo, adolescente, é alvo do sempre cruel bullying do racismo étnico, quando um amigo lhe pergunta numa festa por que ele não se parecia com os pais. Por que não herdou as características tidas como as “corretas”?
Édipo não sabe responder, mas a insinuação maliciosa, de que nele havia algo de secreto o incomodou. Sem saber o que era, a solução era recorrer ao Google da época, o Oráculo de Delfos.
A pitonisa o recebe e responde com crueldade, lhe contando apenas meia-verdade_ o que nada mais é do que uma boa mentira. A crueldade está na estupidez com que responde_ chamando-o aos gritos de miserável, parricida e incestuoso. A crueldade está quando se deixa de fora da resposta o ato amoroso dos pais adotivos, que lhe deram o mesmo contexto que seus pais biológicos lhe arrancaram. Ou melhor, o amor é transformado em sadismo por obra da arrogância de quem retém para si o conhecimento.
Em seguida, Édipo se encontra com Tirésias, um Ser forjado pela crueldade contra os animais, e pela vingança justiceira de Hera. Tirésias, foi alvo do eterno grande risco dos tribunais: confundir, por conta da abusiva crueldade interpretativa, uma real justiça com a banal vingança. Tirésias, internalizando o ato abusivo, torna-se igualmente abusivo ao tenta dissuadir Édipo de buscar a verdade, lhe indicando um procedimento inadequado: usar os sonhos como forma de negação e esquecimento.
Tirésias seria o que hoje em dia chamamos de perito intelectual, lugar que o psicanalista não pode jamais ocupar, pelo risco de nessa posição estar sujeito a todo tipo de erro ao usar vértices normativos, e assim impedir mudanças pela violência teórica.
Um perito ou especialista, pode não conseguir compreender a diferença entre uma situação que envolve confiança, de uma outra que surge por razão política, e que desvia dos valores éticos necessários a prática analítica.
Fornecer compreensão é sempre projeto, sempre requer atualização na incompletude do Saber, e demanda respeito e consideração pela dimensão do futuro, do vir a ser.
A atual mentalidade tecnológica que ganha espaço a cada dia mais pode causar um impasse para o exercício de uma ética da autonomia ao impossibilitar o desabrochar das possibilidades humanas.
A psicanálise precisa estar atenta para o fato de que não vamos encontrar uma resposta definitiva às nossas questões.
Diante de das respostas cruéis e desanimadoras de Tirésias, Édipo toma a resposta como definitiva, e toma o caminho em direção ao trágico destino. A mensagem que lhe foi encaminhada privou-o da capacidade negativa e fechou o caminho a respostas novas.
Logo Édipo se encontra na Encruzilhada entre Daulios e Delfos frente a frente com Laio e sua comitiva. As atitudes são fundamentalistas e resultam em violência e morte. A questão explicita é o direito de passagem, o direito pelo território, portanto, pela soberania do que somente é passageiro. Ambos, sem diálogo, gritam por seu suposto direito, tentando impor seu ponto de vista.
O mundo de hoje, como na encruzilhada do mito, não progrediu no sentido do diálogo, e a psicanálise sendo testemunha desse fato não pode ser cumplice disso. A psicanálise nos obriga ao diálogo, e que nada tem a ver com o simulacro político ao qual se dá o nome de diálogo.
Num mundo de fanatismos e totalitarismos, cresce o autoritarismo travestido de Justiça, seu resultado é a soberania da crueldade com que se condena quem contraria, e não se importa com quem realmente exerce a destrutividade real.
Na crueldade viceja a simulação do diálogo, o que transcorre entre as partes tomadas pela rivalidade, vaidade, e alucinose que confunde a função do cargo com a pessoa, só existe entre as partes a busca da brecha da fraqueza do outro, pela qual se pode anulá-lo ou exterminá-lo.
O passo seguinte é enfrentar a terra devastada pela Esfinge. Qualificada como peste, a que sufoca e estrangula, controla as portas da cidade de Tebas, desafiando os jovens transeuntes. A Esfinge, toma o direito de passagem, está ali porque ocorreu um parricídio e porque um incesto está para acontecer, ou seja, se encontra em razão dos dois paradigmas de todos os crimes.
Ela também simula o diálogo, ardilosa, tenta seduzir com sua voz suave, e ao mesmo tempo profundamente ameaçadora. Ela não diz nada e não quer que se responda sua pergunta. Novamente não há diálogo.
O diálogo psicanalítico é o diálogo verdadeiro que permite o reconhecimento do Outro. Ele nos ensina a experiência que ninguém pode ter razão sozinho.
O psicanalista precisa ter consciência da sua própria ignorância, e basear-se no princípio da Incerteza para poder endossar a responsabilidade da sua função, diante das ilusões causadas pela fé cega proveniente de fatores já descritos: fanatismo, saber especializado, ideia de progresso baseada exclusivamente em pontos científicos e técnicas. A função da psicanálise é apreciar o limite dessas ilusões para integrar as escolhas futuras.
Édipo, por ele mesmo, mantem a ilusão de desvendamento de uma verdade absoluta, mantem o que Blanchot chamou de “ferida aberta do pensamento”, uma ferida que não tinha mais como cicatrizar. Trata-se da crueldade de uma pessoa que se cega pela arrogância de um conhecimento tomado com interpretação excessiva e unilateral. A verdade tem muitas facetas e nunca será nas mãos de uma única pessoa que será revelada. A menos que se transite para a ilusão de ser um Deus e estar vivendo lá no fundo do inconsciente na certeza de sua imortalidade.
Uma ética da autonomia nos coloca diante da psicanálise como uma obra de arte, que o mito de Édipo pode ilustrar. Diante dele, tal como a obra de Freud nos colocou, experimentamos uma verdade inacessível por qualquer outra via; isso constitui o significado filosófico da arte, até que possamos instalar a arte do pensar que deve incitar a reconhecer os limites da arte e os limites do pensar.
A questão de preservar os fatos se deve a coragem de cada indivíduo, que exercendo a ética da autonomia, pode formar e defender um julgamento pessoal, apesar da influência dos peritos, especialistas, intelectuais e jornalistas manipuladores da opinião pública.
Bion, também mostra as possibilidades edípicas dentro de três grandes configurações, comensal, simbiótica e parasitaria (1866, 1970). Podemos fazer a equivalência dessas descrições com as três peças de Sófocles.
Para não me alongar muito em cada uma delas, destaco a configuração parasitária representada pela peça Antígona, e a forma como o texto descreve o extermínio de uma família inteira, com requintes de crueldade, tais como assassinato, suicídio pelo desespero da vergonha, proibição de um sepultamento, emparedamento de uma pessoa viva, todos são atos que possuem significados que podemos extrapolar para o contexto do genocídio.
Tenho consciência da incompletude e modéstia do meu trabalho diante da enormidade do assunto. O que eu talvez tenha feito até aqui é dialogar sobre questões inerentes aos fundamentos da psicanálise. Pergunto sem esperar resposta, quais os fundamentos éticos que sustentam a psicanálise que é praticada na atualidade?
Mas, talvez, tivesse que começar perguntando o que é um psicanalista? Qual a sua humanidade no trabalho que executa?
Muitas pessoas acham que o psicanalista é alguém que tem um enorme conhecimento sobre psicanálise. Ora, ninguém sabe muito sobre qualquer assunto. Não existe essa pessoa.
Eu prefiro pensar que o psicanalista é uma pessoa que conhece alguns dos piores erros e equívocos que podem ser cometidos em seu campo, e assim saber como evitá-los. Um erro dos mais comuns é usar memória e desejo no trabalho (Bion, 1967), pois esses dois elementos atraem os pontos cegos da configuração edípica que são os desejos incestuosos e parricidas. A crueldade está exatamente nessa encruzilhada (Esfinge [21]) na qual sempre chegamos. Diante disso, temos três possibilidades; rompimento, enlouquecimento ou elaboração (breakdown, break up, breakthrough).
Certamente que longas discussões podem ser estabelecidas sobre erros, enganos, equívocos, e sua relação com memória e desejo, mas, se existe algo muito importante de ter em mente é que as possibilidades de ocorrência não vão desaparecer nunca. Isso acontece pela inacessibilidade a verdade, ou pelo fato de que a verdade habita as profundezas, e quanto mais profundo vamos, mas ela mergulha no desconhecido. Portanto, ser superficial é um dos piores erros que o analisa pode cometer, e ele vai fazer isso toda vez que pensar que pode saber o que é melhor para seus pacientes.
Notas
1 Membro Efetivo e Didata da SPRJ, Membro do NPI, Membro Honorário do I.W. Bion, Bion Award 2025, NYU, NSSR, FCS.
2 Derrida, J. 2001, editora Escuta.
3 Na ocasião eu exercia o cargo de Diretor Científico e editor de Gradiva, da Sociedade de Psicoterapia de grupo do Rio de Janeiro.
4 Paul Ricoeur e Cornelius Castoriadis: Diálogos sobre História e o Imaginário Social, edições 70, 2016.
5 KANT, Immanuel (2008). A paz perpétua: um projecto filosófico. Covilhã: Lusofonia Press.
6 Morin, E. El método VI: Ética. Madrid, Cátedra, 2004.
7 Usei aqui uma metáfora, sabendo que se for aceita sem questionamentos, traz o risco da falácia e da tautologia.
8 Castoriadis, C. The Imaginary Institution of Society, Mit Pri, 1987.
9 Eco, U. Cinco Escritos Morais, Record, 1998.
10 Comunicação pessoal.
11 Em muitos momentos o evento se perdeu nos meandros de embates ideológicos, confusões entre realidade psíquica e realidades social-histórica, e fantasias de resolver problemas sociais com psicanálise.
12 Roudinesco, E; A parte obscura de nós mesmos: uma história dos perversos, Zahar, 2008.
13 Baldwin, Pat; Baldwin, Tom, eds. (2000). Cambridge School Shakespeare: King Richard III. Cambridge University Press. pp. 1–2.
14 Essa lógica muito utilizada na atualidade política, por exemplo, um ladrão preso em flagrante delito, pois foi filmado por câmeras, diz que não deu direito de imagem, portanto, não pode ser acusado de ladrão.
15 Orwell, G. Politics and the English Language, 1946, Oxford.
16 Meltzer, D. Sincerity and other works, Routledge, 2018.
17 Por isso ele se desculpa citando Freud na carta a Einstein: “ Se minha exposição vos decepcionou, peço-vos perdão”. No final de tudo está a pulsão de morte.
18 FREUD, S. (1938 [1932]). In: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos. Direção geral da tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 167-191. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).
19 Baumann, Z. Liquid Modernity, John Willey & sons, 2013.
20 Comunicação pessoal.
21 Green, André- comunicação pessoal.
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