O longo alcance da psicanálise: um ensaio sobre a memória do futuro
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Escrito por Arnaldo Chuster [1]
Resumo: O autor, a partir do conceito de pré-concepção, compreendida como uma função geradora da mente, conjectura a existência de uma mente embrionária, que se desenvolve pelo movimento primitivo da imaginação radical. Esta também coincide com o fenômeno da intuição. O movimento combinatório de desdobramento da mente, até chegar no meio extra-uterino e transformar-se em imaginação, depende da interação com outros e, para Bion, é compreendido no espectro de possibilidades de observação rêverie- função alfa. Diante da complexidade da mente humana – que não aceita fenômenos que comportem compreensões dualistas –, como observá-la? No transcorrer do artigo, são desdobradas várias questões são desdobradas, questões tendo que têm como ponto de partida a trilogia A memoir of the future (Uma memória do futuro), de Bion, Uma memória do futuro.
Palavras-chave: pré-concepção, imaginação radical, pensamento complexo, cesura
Introdução
A relação entre duas letras gregas ψ (ξ), seguindo o algoritmo das funções matemáticas f (x), foi usada por Bion para representar a pré-concepção.
Podemos pensar no conceito como representando a função geradora da mente. Trata-se – parafraseando John Milton –_ de um conceito que nos fala de um mundo invisível aos olhos dos mortais. Todavia, essa função é absolutamente essencial para nos designar como seres humanos, e indica o potencial que, uma vez acionado no processo psicanalítico, permite que exista evolução do Ser através da liberdade para pensar e criar.
O maior ou menor alcance da psicanálise individual depende da extensão dessa evolução. O futuro da psicanálise, certamente, também dela depende, tanto teórica quanto praticamente.
Por exemplo, a hipótese de uma análise bem-sucedida podendo ter um longo alcance, depende de certas condições. Uma delas é permitir um mínimo de condições para alcançar uma vida emocional de boa qualidade, e fornece a capacidade de retornar constantemente ao processo consigo mesmo. Além disso, criar a consciência da necessidade de retornar temporariamente com outrem se o processo consigo mesmo estiver falhando ou tornando-se vago.
Em outras palavras, as duas letras gregas ψ (ξ) representam a ideia de que existe algo como uma mente embrionária que floresce como singularidade humana.
Em vários trabalhos (Chuster, 2002, 2018, 2020, 2024, 2025), me referi ao conceito de imaginação radical, como sendo o movimento mais primitivo que desenvolve essa mente a partir dos ritmos intrauterinos.
A imaginação radical é também coincidente com o fenômeno da intuição. O termo “imaginação radical” enfatiza que existe um movimento combinatório de desdobramento da mente embrionária até chegar no meio extrauterino e se transformar em imaginação propriamente dita. Este fato depende da interação com outros, e foi estudada por Bion no espectro de possibilidades de observação rêverie-----função -alfa.
O presente trabalho se refere a essa significativa interação complexa, que ocorre do indivíduo consigo mesmo e com os outros, inspirado pela trilogia A memoir of the future (Uma Memória do Futuro), de Bion (1975, 1977, 1979), cujo conteúdo é a interação entre personagens reais e fictícios, num esforço de estabelecer a dialógica complexa que expressa a experiência emocional da análise.
Função psicanalítica da personalidade
O algoritmo de uma função geradora onde na qual ψ é a invariante, significa que a psique trabalha na interação com variáveis (ξ), que sempre provém da experiência.
A experiência invisível precisa encontrar imagens, palavras, mitos, sonhos, pensamentos oníricos que a traduzam, mas todos esses elementos de linguagem dependem das possibilidades que fazem a intuição se transformar em imaginação.
Não existe outra solução senão usar palavras para representar o invisível. A solução pode nunca ser suficientemente boa, ou porque tal coisa não existe, ou, porque somente poetas podem atingi-la. Mas, seja em qualquer momento, a psicanálise é uma forma de comunicação verbal, que tem o não-verbal como fundo.
A liberdade psicanalítica não faz exigências de que o analista deva ser um poeta, apesar de que se fosse poderia tornar-se-ia um melhor analista. O contrário pode não ser verdadeiro, ou seja, o fato de alguém ser poeta não lhe confere habilidades psicanalíticas.
Na falta dessa exigência, ao menos podemos usar o modelo da poesia, não pela arte em si mesma, mas pela poiesis. A arte fica por conta do exercício da psicanálise como ciência da observação dos relacionamentos humanos pela ótica do inconsciente.
As conjecturas imaginativas e racionais acima, me permitem exercer a licença poética que cria a metáfora “ondas psíquicas invisíveis”, sendo então a letra ψ na expressão da função ψ (ξ) denominada de função invariante de um espectro de ondas.
A mente humana, imaginativamente falando, é feita de um espectro de comprimentos de ondas. Neste, a invariantes ψ num campo se modifica de acordo com o aparecimento de inúmeras variáveis ξ inerentes a uma mente social-histórica (experiência). À primeira vista temos aqui um conceito de vida psíquica supondo uma contínua transição entre espaços com movimentos de dentro para fora e vice-versa, juntamente com o importante fato de que entre eles existe uma cesura.
Quando digo que algo existe “dentro” e “fora”, isso não é a formulação de um conflito, mas de uma relação simétrica. Ela é análoga, no domínio da personalidade, ao que seria a visão bifocal do exame físico. Na experiência sensorial, os olhos focados num determinado ponto fornecem a ideia de que eles se encontram.
O domínio da intuição – imaginação radical em busca de uma função que lhe transforme em algo visível aos olhos dos mortais – não permite termos simplistas. O conceito de simetria não aceita os termos simplistas, mas é algo bem simples.
Por exemplo, se falamos de real e imaginário, isso significa que eles apenas se complementam um ao outro, pois não se encontram. Na matemática isso equivale àa formulação de que duas linhas paralelas só se encontram de forma ilusória no infinito; o encontro decorre do engano produzido pela visão à distância.
No domínio da personalidade, essas “linhas” se tornam simétricas, ou seja, infinitas. Dizer que elas se encontram no infinito é falar da indeterminação das observações. Uma solução que parece mais adequada a este mundo complexo é pensar na indeterminação como uma cesura. Por exemplo, entre dentro e fora existe uma cesura no lugar da indeterminação da simetria dos termos. Dentro e fora nunca coincidem como realidades, mas possuem continuidades e descontinuidades.
A cesura é uma entidade infinitamente plástica, expressão da existência de uma simetria símbolo de um limite entre a vida intrauterina e a vida extrauterina, pré-natal e pós-natal, uma ideia originalmente relatada por Freud (1926/2014/1926). Todavia, em Bion ela se expande para significar a transição de um mundo regido pelo acaso (pré-natal) para um mundo regido pela escolha (pós-natal). Essas duas possibilidades continuam existindo desde o nascimento até a morte. São possibilidades simétricas.
A ideia de cesura permite observar e descrever a realidade que encontramos em eventos que tecem uma rede de interações. O que encontramos e damos significados são nós efêmeros dessa rede. Suas propriedades (elementos da psicanálise) só são determinadas no momento dessas interações, e apenas em relação àa outras interações de elementos. Ou seja, cada coisa observada é apenas aquilo que se reflete em outras. Torna-se óbvio que precisamos aumentar o número de elementos da psicanálise; foi o que Bion realizou nos textos Elementos de psicanálise (1963/2004) e Transformações (1965/2004). Ele passou de 4 para um mínimo de 36, que se abrem para o infinito.
Uma imagem para visualizar essa situação de infinitas possibilidades pode ser fornecida pela superfície de um lago (o campo (ξ)) onde na qual as árvores ndas margens estão refletidas no espelho d’água, cuja imagem, quando sopra o vento, as imagens se alteram por causa das ondulações. Se o vento é muito forte, podemos ver não-árvores, uma forma peculiar e imaginativa de assinalar que as árvores que víamos desapareceram. Mas, não o campo, – este permanece.
Parece uma ideia muito simples, mas é uma ilusão da observação visual. As árvores continuam nas margens; quem sofreu alterações foi o observador por causa da turbulência na superfície do lago. O observador se tornou parte do observado por causa da sua interação com o lago. Isso permite dizer que toda visão é parcial. Ou seja, não existe uma forma de ver a realidade que não dependa de uma perspectiva (vértice). Não há ponto de vista absoluto, universal. No entanto, os pontos de vista se comunicam, os saberes estão em diálogo entre si e com a realidade, no diálogo se modificam, se enriquecem, convergem, nossa compreensão da realidade se profunda. Sobre isso trata A memoir of the future.
Em outras palavras, foram produzidas descontinuidades pela turbulência na superfície do lago, o que nos leva a confrontar tudo que vemos com a questão da observação de continuidades/ descontinuidades versus turbulência.
Portanto, posso dizer que, se vamos observar ondas psíquicas – e uso essa expressão para aparentemente facilitar meu diálogo –, não há como fazer isso sem levar em conta três elementos: continuidades/descontinuidades, singularidade e turbulência. Vou agregar mais um elemento, que é a singularidade. Ela entra aqui para dar especificidade a cada observação.
Outra questão importante é que precisamos de uma espécie de instrumento que nos forneça previsões probabilísticas, não previsões exatas, mas algo que permita trabalhar com aproximações sucessivas, uma vez que não temos nunca todos os dados do problema e não podemos saber o que acontecerá. Em Bion encontramos esse instrumento formulado como espectro rêverie-/função alfa. Trata-se, mais de um sistema aberto, não-linear e complexo, apesar de podermos fazer analogia com o telescópio do astrônomo. A calibragem do instrumento ocorre em toda sessão pela ferramenta que se chama capacidade negativa.
Esse espectro pode gerar pensamentos antecipatórios a partir da percepção do contato com o espectro de sentimentos, que é o front das observações psicanalíticas. Mas o que acontece se não fazemos contato com os sentimentos? Existe algo como não-sentimento?
Qualquer teoria psicanalítica que usamos pode descrever a observação do que ocorre numa sessão, mas não consegue descrever o todo e nem o que ocorre entre uma sessão e outra. Deste modo, qualquer teoria só permite a probabilidade de observar um fato, quando existe mais de um fato. Isso também significa que não temos teoria suficiente para todos os fenômenos, principalmente aqueles que causam mais turbulência, e que leva ao não-existente.
Na física mecânica quântica esse fenômeno é descrito pelo princípio da incerteza de Heisenberg. Graças a Bion esse princípio encontra aplicação na psicanálise, o que permite entender realidades de turbulência e ausência de objetos por outra perspectiva.
Vou dar um exemplo do que parece ser um fenômeno onde esse princípio se aplica. Vou me reportar a uma descrição que Bion faz daqueles pacientes em que a falha da função alfa é tão grande a ponto de fazer que faz com que que uma das mais importantes características psíquicas, o sonhar, seja perdida, e como o sonho é o guardião do sono (como diz Freud), o indivíduo que não pode dormir também não pode estar acordado. Ou, se não pode acordar, é porque não pode dormir.
Estaria o indivíduo num terceiro estado mental, o do não-dormindo e não -acordado? O mesmo daquele estado onde no qual as árvores desapareceram por causa da turbulência muito forte?
Mas, podemos formular a questão de outra forma: E se essa falha fizesse com que o indivíduo estivesse dormindo e acordado ao mesmo tempo? Seria diferente a descrição do fenômeno? Uma sobreposição de dormindo e acordado? Como se houvessem dois indivíduos ao mesmo tempo, em distintos universos.
Para complicar mais um pouco, vou considerar que minha função de onda ψ (ξ) me permite ver somente uma das possibilidades e atribuir a ela uma realidade. Se vejo apenas uma realidade quando existe mais de uma, e não sendo fundamentalista religioso e nem político, isso me torna um não-observador confiável?
Outra forma de colocar essa questão seria fazendo perguntas. O que é uma observação? O que é um observador?
Bion (1977/2014/ 1977) sugere que devemos nos ocupar com o futuro da transferência para que ela não se transforme em uma ilusão sem futuro. As perguntas anteriores acima são parte da ocupação relacionada com a sessão de amanhã. São perguntas difíceis de serem feitas fazer, exibem a complexidade necessária ao pensar, e por isso a única saída se encontra em enfrentar a complexidade do campo. Essa tarefa dá um longo alcance à psicanálise.
O objetivo do presente trabalho é continuar desdobrando essas questões, tomando como índice a trilogia A memoir of the future, de Bion, A Memória do Futuro, título muito sugestivo, e expressão de uma possibilidade que existe apenas para a complexidade. Para os deterministas, a proposta que estou trazendo é um palavrão.
A Memória do Futuro foi escrita num momento da vida em que Bion fez uma guinada filosófica de Kant para Nietzsche. Essa perspectiva é útil para entender que os títulos de seus três volumes podem ser definidos pelas últimas frases do filósofo antes de ter o breakdown em Turim. Ele escreveu um bilhete ao seu amigo e editor Georges Brande dizendo;: “você sempre sonhou em me encontrar, agora que me encontrou, tudo que tem a fazer é começar a me esquecer”.
Temos então três passos a seguir nos três volumes: o sonho, o passado apresentado, e a aurora do esquecimento.
Esses passos são dados na trilogia de Bion por personagens que interagem em diálogos que podemos resumir através dos versos de Schiller: “só a plenitude conduz à claridade, e a verdade habita as profundezas” (citado por Heisenberg, 1969/2000). “
A plenitude é a fartura de conceitos mediante os quais podemos falar de nossos problemas e dos fenômenos que ocorrem na psicanálise, ou que a ela dizem respeito, mas respeitando a incompletude de nossas conclusões. Estamos mais próximos das profundezas onde habita a verdade quando deslizamos pela complexidade do mundo.
Volume I: O sonho
“O que é um sonho? O que o sonhador pensa dos eventos experimentados no que parece ser ao observador a situação em que está dormindo? No sentido contrário, o que ele pensa dos eventos que experimenta quando o observador está acordado?” (Bion, vol 1, 1975, pág. 179, tradução livre).
Quem se depara com esse primeiro volume – e também com os demais – tem o despertar brusco do sonho feliz que vinha embalando ilusões de que começáramos a compreender Bion. Mas é um despertar que nos leva ao coração pulsante do pensamento científico de Bion, o pensamento complexo, que não é feito de certezas adquiridas, pois é um pensamento em movimento contínuo, cuja força é precisamente a capacidade de recolocar sempre em discussão todas as coisas e começar de novo. Posso, mais uma vez usando licença poética, falar de um renascimento da psicanálise naquele ponto onde ela começou. Acrescento ainda um renascimento em cada sessão. Deste modo, a sessão de hoje não tem passado na memória, apenas traços vagos da expectativa de que existe uma mente no futuro capaz de acolher as vicissitudes e incompletudes do humano.
O pensamento complexo indica que não devemos ter medo de subverter a ordem do mundo, ele propõe que devemos ousar perturbar o universo para buscar um mais amplo, e depois voltar a colocar tudo em discussão, subverter tudo de novo.
Não ter medo de repensar o mundo é a força da ciência psicanalítica. A realidade psíquica se redesenha continuamente em formas cada vez mais apuradas. A coragem de reinventar profundamente o mundo animou Freud, animou aos seus seguidores, pois ele se configura no mais justo dos sonhos, ao de que tenhamos seres humanos melhores, com melhor qualidade de vida psíquica.
Um elemento comum a todos autores em psicanálise é a teoria dos sonhos. O uso dos sonhos foi sempre imprescindível para esclarecer a qualidade do mundo interno, e teve em Bion uma amplitude inédita. Ele considerou o sonhar uma atividade constante da mente, uma diuturna função processadora e protetora, sem a qual não podemos viver e nos desenvolver como seres humanos. A psicanálise é um campo de sonhos, mas também, predominantemente, o campo da função do sonhar.
Com os conceitos de rêverie e função alfa, penso que Bion tentou solucionar um problema que Meltzer (1996) ressaltou em diversas ocasiões: a teoria de Freud sobre os sonhos não coincide com a clínica de Freud. A teoria comparada à clínica é relativamente simplista. O trabalho clínico executado por Freud é altamente intuitivo, e revela uma complexidade inusitada na história da humanidade. A intuição de Freud extrapola suas teorias e nos chega aos dias de hoje com as aberturas infinitas inerentes à psicanálise como uma linguagem de êxito que traduziu um pensamento sem pensador (Bion, 1970/2006/1970). Temos no pensamento humano um mundo antes e depois de Freud.
Foi esse aspecto intuitivo que encontrou uma resposta muito viva por parte de Karl Abraham, e, posteriormente, de Melanie Klein. A intuição de Abraham o levou a apurar e descrever com mais detalhes as fases do desenvolvimento da libido postuladas por Freud. Esse detalhamento (intuir de certa forma é também detalhar), das fases oral e anal, e a importância do seu funcionamento, foi acolhido de uma forma ainda mais intuitiva por Melanie Klein.
Klein deu continuidade à questão da concretude da realidade psíquica, intuída por Abraham nos seus estudos sobre estados maníaco-depressivos, o que a levou a parar de falar em superego (que era o objeto da psicanálise para Freud) e passou a falar em objetos internos.
Melanie Klein, trazendo a ontologia do Complexo de Édipo para as fases mais primitivas do desenvolvimento, buscou inicialmente compreender a origem materna do superego (Meltzer, 1996), retrabalhando a questão do ideal do ego primitivo. Todavia, ela deixou essa ideia de lado, e passou a falar de apenas objetos internos – maternos ou paternos.
Foi neste ponto_ deixado de lado por Klein_ que Bion retomou desenvolvendo outro sentido para o conceito de pré-concepção inata de Klein.
Ao aplicar sobre o conceito a compreensão matemática das funções – cuja maior parte não era inata, mas dependente das experiências que nomeou de realização –, Bion expressoua de uma forma original e inédita a importância do papel da mãe no desenvolvimento do bebê. Para Bion tratava-se não mais de simplesmente afirmar que a mãe era importante, mas de que forma era importante. Mais ainda, se tratava-se de descrever em detalhes o quão complexa é a função psíquica exercida pela mãe, e de como observar essa função no trabalho analítico.
Trabalhando nessa direção, Bion, chegou a uma compreensão distinta de Melanie Klein sobre o conceito de identificação projetiva. A teoria das funções permitiu que ele entendesse a identificação projetiva, não como uma fantasia onipotente do bebê, mas como o método primário de comunicação. O modelo propõe que o bebê transmite suas necessidades à mãe, e por isso o conceito adquire o status teórico de uma linguagem. Para que ficasse mais clara sua ideia, Bion frisou o caráter real de acontecimentos no conceito: a identificação projetiva não se detém com nada, somente quando atinge o objeto ao qual se destina. Ou seja, as pessoas no nível inconsciente se comunicam querendo ao não –, o que fazem com as comunicações é outra questão. Mas a comunicação sempre chega.
No caso de uma comunicação não ser respondida ou ser recusada, a identificação projetiva se torna uma linguagem evacuativa para livrar-se dos terrores resultantes – mas ainda assim é linguagem – e produzirá elementos que foram o que foi chamados de elementos beta: os formadores da tela beta,: uma representação pictórica de fatos na clínica percebidos como ações, reações físicas, e sentimentos de diversas naturezas.
Mais ainda, Bion mostrou que o processo não se restringe ao âmbito materno, pois as falhas também dizem respeito a interações com o pai, a família, a sociedade, e a um estrato último e destacado da sociedade, que é a mente criativa. A imagem de um looping autopoiético é a que melhor descreve essas interações.
A imagem tridimensional de um looping mostra a incompletude de todos os elementos psíquicos, que só existem se estabelecerem interações entre si. Essa percepção possibilitou descrever a transferência se movendo numa configuração circular e espiralada, também como a de um looping. Essa descrição deixa de lado os conceitos clássicos de repetição, e correlativos ligados à teoria pulsional de Freud. Não os exclui porque se trata de um modelo complexo aberto a todas as possibilidades de interação_, mas a ênfase na observação mudou. As ideias de Bion tiveram neste ponto uma resposta inédita no objeto psicanalítico (1962/2021/ 1962) e nas áreas de aplicação, descritas como um contexto ético-estético interativo das áreas dos mitos, sentidos e paixões. Podemos resumidamente descrever essa interação como ocorrendo entre uma experiência sensorial que cria uma história viva e uma que requer um significado. Como a experiência sensorial muda o tempo todo, consequentemente a história muda, e os significados passam a ser métodos de aproximação que podem ou não se tornar mais apurados.
A complexidade do modelo do objeto psicanalítico, também mostrou que a configuração da transferência, pode fornecer uma nova compreensão da teoria das posições de Melanie Klein. As posições em Bion são simultâneas, criando uma permanente tensão psíquica com graus variados de turbulência. O processo de interação entre elas vai se movendo com o quantitativo das forças presentes em cada uma delas. Por outro lado, a interação precisa de um terceiro que as integre, ou seja, o fato selecionado de Poincaré, e que varia de acordo com o tipo de tensão entre as posições. Posteriormente, Bion (1965/2004) descreve mais amplamente essas interações usando a teoria das transformações (2004/1965), cuja base é a teoria das catástrofes.
O passado apresentado
“Os tempos passado e futuro são frequentemente usados numa conversa psicanalítica. O melhor que podem fazer é representar apenas sugestões da necessidade de discriminar qualidades que estão sendo interpretadas. A única evidência é aquela que o analista pode observar por si mesmo num certo momento, enquanto fala. O fato é obscurecido por palavras que tendenciosamente implicam que o evento ou o sentimento, para o qual se deseja chamar a atenção, ocorreu “no passado” ou “no futuro”. Mas a coisa importante sobre o estado mental do paciente é que existe no momento que está sendo observado pelo analista.” (Bion, 1977, vol II, p. 132, tradução livre).
Na língua portuguesa, o passado pode ser expresso como pretérito perfeito, que indica um fato que aconteceu em um determinado momento no passado, e como pretérito imperfeito, é usado para indicar uma ação que não foi terminada. Isto é, um acontecimento que não foi concluído.
Ambos os tempos são relevantes no trabalho analítico. Podemos simplesmente constatar que o psicanalista e os seus instrumentos são parte da sessão que começou em algum momento do passado. O que muitas vezes precisamos fazer é descrever a maneira como uma parte da sessão se manifesta em outra sessão. Nessa constatação podemos chegar à conclusão sobre pretéritos perfeitos e imperfeitos, objetos que são falhos e outros melhor mais bem-sucedidos na comunicação. Todavia, nenhum dos objetos observados se encontra em solidão. Ao contrário, eles nada fazem além de agir um sobre o outro. É para essas interações que temos de olhar se quisermos compreender alguma coisa. O mundo que observamos é um contínuo interagir. É uma densa rede de interações. Podemos chamá-las de vínculos.
A função que deu início ao presente trabalho – ψ (ξ) – pode ser espelhada no a posteriori de uma sessão. Esse passado reapresentado pode ser descrito numa grade onde na qual os objetos psicanalíticos caracterizam-se pela maneira como interagem.
Na psicanálise podemos colocar esses objetos como personagens. A trilogia de Bion exibe a interação entre esses objetos psicanalíticos como personagens relacionados com sua história pessoal.
Obviamente há sistemas físicos específicos que são observadores em sentido estrito: órgãos dos sentidos, memória e desejo. Mas há um observador não sensorial que se chama imaginação e que parte da experiência sensorial que observa para outro tipo de observação, que só pode ser concluída pela imaginação e pela sua publicação, ou seja, pela linguagem.
As propriedades dos objetos psicanalíticos são a penas a maneira como uma coisa influencia outra. Existem apenas na interação com outras coisas. A teoria psicanalítica é a teoria de como os objetos psicanalíticos se influenciam. Essa é uma descrição simples, mas tem consequências radicais que abrem um espaço de longo alcance para a psicanálise.
A aurora do esquecimento
“ Aurora é uma referência a uma teoria popular sobre o sono. É também supostamente a situação em que um indivíduo dormindo passa para o estado de vigília e é assaltado por pensamentos e sentimentos assustadores e irracionais”. (Bion, 1977, vol II, p. 94, tradução livre)
Na teoria do pensar de Bion, a filosofia oferece um nível ético para a psicanálise através da formulação de questões da vida. As respostas da psicanálise a essas questões são dadas através de uma prática que leva em conta a singularidade das raízes inconscientes da história de cada um. Deste modo, isso faz da psicanálise uma atividade artesanal que precisa de modelos artísticos. Todavia, como a psicanálise lida com o sofrimento psíquico humano, a comunicação das respostas, apesar de seguir padrões estéticos, necessita de precisão para atender a esse sofrimento, o que sugere que deveríamos buscar também modelos matemáticos.
Deste modo, a relação entre a filosofia e a psicanálise deve ser da mesma ordem que existe entre a matemática pura e a matemática aplicada, ou seja, a psicanálise necessita possuir um campo, e esse campo precisa ser regido por princípios epistemológicos que o afastem de crenças e hábitos vazios. A matemática oferece então o nível mais originário, que é o metafísico, onde no qual se define o campo, – no caso, o da verdade-, com as limitações e alcances dessa hipótese definitória.
Essa hipótese definitória implica sempre em subjetividade individual, e não em uma subjetividade filosófica que pode ilusoriamente ser tomada como universal. Com isso naturalmente passamos ao nível da dúvida: esse conhecimento que nos é oferecido como possibilidade aproximativa a uma observação se a interação entre objetos observados é verdadeira ou falsa?
Quando um paciente nos fala, não é obrigatório que tenhamos uma interpretação para essa comunicação, pois não se trata de a psicanálise ter que interpretar para ser psicanálise, e sim de o ser humano que precisar interpretar para se tornar humano. Como esse ser interage com seus objetos determina o tipo de evolução que tem no sentido de sua humanidade.
A palavra que Freud usou foi “Deutung”, com a qual expôs um método original fundamentado e confirmado por uma experiência de capacidade negativa e rigorosamente dirigida como método científico. “Deutung” não é explicação, mas uma proposição destinada a investigar o desconhecido, ou seja, aquilo que nãos sabemos. A interpretação deve agregar o sentido da interação entre objetos, que vem a ser na Grade de Bion a categoria da notação, naturalmente subsequente à categoria ψ.
A notação envolve a história que pode ser colhida e pode dar indícios de invariantes. Porém, a história se compõe de fatos que se comunicam a distância graças a um arbitrário vínculo lógico. Precisamos de um terceiro para revelar essas correlações lógicas e lhes dar realidade. A aparente incongruência vem do esquecimento de que tudo que se manifesta o faz para alguma coisa. Uma correlação entre dois objetos é uma propriedade dos dois objetos: como todas as propriedades, só existe em relação a um terceiro objeto. A complexidade não é uma relação dual, ela é sempre uma relação à três.
Conclusão
A psicanálise vista pela complexidade não aceita fenômenos que tenham compreensão dualista. A busca de integração de fenômenos através de imagens oníricas, sonhos e mitos, por si só deveria , por si só, descartar as interpretações dualísticas. O problema é que temos que descrever essa vivência de longo alcance em linguagem cotidiana. Mas essa não descreve inteiramente o mudo real da nossa observação, e ainda por cima somente fornece modelos que são complementares, e, portanto, contraditórios.
O que temos então a fazer é manter a esperança de que consigamos descrever com os recursos limitados a experiência que observamos.
As ideias de Bion (1977/1981) sobre a cesura (1981/1977) representam uma das diferenças importantes em sua obra, e nos trazem um pouco mais de esperança em de observar de outra forma o trabalho analítico e a noção de transferência.
A “Cesura” é um termo basicamente oriundo da linguagem poética que sugere um modelo de trabalho no campo analítico onde no qual existe a opção de não se trabalhar classicamente a transferência, mas na transferência. Aceitamos assim que o observador faz parte do observado indissociavelmente.
A cesura pode surgir em qualquer lugar, fazendo uma conexão entre dois meios. Sua condição é puramente fantasmática, uma vez que passa a existir por causa dos elementos simbólicos que a identificam num determinado momento.
O momento da cesura é determinado pela condição de um sujeito que aí se revela com a dimensão mais básica do ser humano: o tempo. Assim, a cesura é tempo, mas indivisível dos elementos, espaço e profundidade. Os três elementos que constituem a tridimensionalidade da mente humana estão contidos como potencialidade no elemento inato da pré-concepção. Observamos então como eles se desdobram e como somos levados por eles.
O inato na pré-concepção é a disposição para buscar uma mente tridimensional. Esse processo não ocorre sem a cesura. Por exemplo, podemos falar de pré-natal e pós-natal, sono e vigília, consciente e inconsciente, finito e infinito, humor transitivo e intransitivo, transferência e contratransferência. Mas a relação entre os meios só pode ser nomeada com os recursos da linguagem.
Tudo então depende de qual linguagem utilizar: linguagem de êxito ou linguagem de substituição? Se usarmos a primeira, usaremos a cesura, então teremos uma palavra combinada para abrir realidades infinitas. Não ao isolamento entre Eu e Tu, mas Eu-Tu;, não diga transferência e contratransferência, mas a (contratransferência).
Essas palavras são obtidas deste jogo bem-humorado que pode ser o analisar através da habilidade de fazer as perguntas difíceis (que são palavras combinadas), e que só tem respostas temporárias. Podemos dizer que são as perguntas essenciais de longo alcance, para momentos nodais da prática analítica. Momentos em que cabe a escolha de um destino: breakdown, breakup, breakthrough.
A intuição, sendo basicamente a expressão do tempo interno, tem sua parte que se pode chamar de contra intuição, bem ilustrada pela cena do Chapeleiro Louco em As aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1865/2009). A cena mostra como a perda da função do arcabouço psíquico- – a pré-concepção – transforma o tempo em um espaço onde nada acontece e, consequentemente, não há sem profundidade nem alcance. Se toda hora é hora do chá, não há intervalo, portanto, não há chá. Nesta cena, temos também o personagem Coelho Branco, que está sempre atrasado, mas o relógio que ele usa não tem ponteiros, ou seja, o relógio (o tempo) perdeu sua função ao perder os vínculos com o espaço e a profundidade.
Então, investigue-se o conjunto infinito, o não- linear, o não- determinístico, o complexo, o não- euclidiano: conceito = espaço, intuição = tempo, profundidade = pensamento. Investigue-se, em outros termos, a cesura.
Deixemos viver o futuro no palavrão fornecido pela metafísica: a verdade.
Referências
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