O que faz o psicanalista se "somos feitos da mesma matéria que os sonhos"?
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Apresentado no "Bion XVII - São Paulo" por Arnaldo Chuster
AGRADECIMENTO
Eu gostaria de agradecer ao convite para estar aqui hoje de forma mais substancial, destacando minha emoção amorosa, e discorrendo em detalhes sobre os muitos anos de contato enriquecedor com cada um dos membros da Comissão Organizadora, com carinho especial para Evelise Marra, e também aos muitos colegas que hoje me assistem. Mas, como isso levaria muito mais tempo que a exposição, vou passar ao tema de hoje.
I
A frase de Shakespeare em A Tempestade [1], título do nosso encontro, obviamente se trata de uma expressão repleta de significados veiculados pela escrita do supremo escritor inglês - para muitos, por suas descrições dos personagens e suas emoções, o precursor da psicanálise.
Dos múltiplos significados, posso exemplificar citando o imaginário social das instituições, que é habitado com narrativas semelhantes às de Shakespeare, repletas de elementos mágicos e fantásticos, além de contar com diálogos cômicos.
Também, como na peça, é possível contar a história de pretendentes à cargos institucionais, que se vingam de quem lhes usurpou o poder. E ainda discorrer, sobre o ambiente de ilha remota, onde pessoas vivem isolados, o que nos leva à suposição de ignorar a realidade, além de manobras políticas produzidas por alguma espécie de fraternidade tribal.
A matéria dos sonhos está sempre circulando nesses espaços subjetivos e/ou objetivos, nas tramas e narrativas que constituem o tecido social e na interação dos seres humanos entre si.
Apesar da frase sobre a matéria dos sonhos, ter inspirado incontáveis autores a escrever, vinculando o humano aos desejos e ao sonhar, existem autores afirmando que, na realidade, somos feitos é da mesma matéria das estrelas [2]. Esses últimos apresentam argumentos muito convincentes [3]. Mas como tenho a ilusão de que não estou trabalhando com astrofísica, prossigo com Freud e a psicanálise.
II
A matéria dos sonhos para Freud são os nossos desejos, nascidos de nossa existência, seja ela arcaica, infantil, ou adulta, e constituem o primeiro estágio que une os seres humanos. A psicanálise mostra de uma forma inédita, a ontologia em que os seres humanos necessitam receber de outros as virtualidades para realizar sua própria humanidade.
A existência humana se dá através e por causa de vínculos_ limite de espaço-tempo onde se situam os desejos_ o que plenamente justifica indagar qual é o papel do analista com os desejos, sendo ele próprio deles constituído e com eles e por eles profundamente envolvido.
A pergunta, como qualquer pergunta, indica que de algum modo precisamos conhecer mais sobre nossos vínculos, e que certamente existem dificuldades a serem melhor exploradas; e/ ou pontos de investigação a serem iniciados.
Freud passou a vida toda se dedicando a entender os desejos humanos. Creio que não tenhamos feito outra coisa além de Freud, lutando simultaneamente - como ele mesmo fez - contra o fato de que não existe no inconsciente um desejo de ser analista.
No inconsciente, existem desejos que influenciam, e muitas vezes conduzem nossas experiências pessoais e emocionais, reveladas pela descoberta fundamental da existência de uma mente tridimensional que Freud pode visualizar, metaforizar, e simbolizar pelo mito de Édipo.
A clínica é criada pela experiência emocional de vínculos com personagens da vida de cada um, sobre os quais se aplica os personagens do mito de Édipo e, vice-versa.
Bion, em sua releitura ampliada do mito (1957, 1963, 1975) nos permite visualizar desejos que provém de duas versões; uma versão alfa e uma versão beta.
Outros mitos são igualmente utilizáveis para descrever os desejos humanos, embora não existe nada comparável às possibilidades do mito de Édipo. Seguindo essa diretriz podemos sugerir, na versão beta, centralizada nos fenômenos da arrogância/ onipotência/ crueldade, desejos de assustar, ofender, maltratar, e expulsar o paciente (Oráculo de Delfos), seduzir e enganar o paciente (Tirésias), matar o paciente (encruzilhada de Delfos e Daulios), devorá-lo, doutriná-lo, aprisioná-lo, (Esfinge), tramar e copular com ele (Jocasta), cegá-lo e desesperá-lo (Édipo diante da verdade); mas não existe no inconsciente o desejo de ser analista.
Na outra versão, a versão alfa, podemos escolher prosseguir investigando a verdade, admitindo versões incompletas, aceitando que existem sempre incertezas e elementos desconhecidos, acolhendo negociações, composições, oposições, e aceitando que a saída está na linguagem amorosa que a arte nos permite, seja pela linguagem da arte da ciência ou da ciência da arte, pela possibilidade em que ambas permitem usufruir do Pensar.
Certamente foi genial a formulação de Bion ao mostrar que os desejos e memórias, tal como são comumente conhecidos, atraem na expressão de John Milton [4], esse “oedipal gloom”.
Dito de outro modo, assinalando nessa formulação de Bion sua fidelidade à teoria edípica (1965), podemos entender que os desejos buscam memórias para penetrar, e as memórias buscam desejos que as penetrem, juntos, acomodados no leito sensorial, produzem um terceiro, a necessidade de compreensão, uma espécie de bebê com demandas que desviam o olhar psicanalítico criando pontos cegos na observação.
Portanto, para manter o olhar psicanalítico é preciso desenvolver uma agilidade de pensamento, uma significativa capacidade de trocas simbólicas, que para alcançá-la, o pensamento deve, a cada passo, poder quebrar o poder de seu esforço de entender e dar significado. No vazio desta ausência de necessidade de compreensão, abre-se espaço e dá lugar a operação espontânea do ser na experiência de pensar.
Além dessa forma proveniente da poesia modernista de Elliot (1967), Bion fala sobre a experiência de mais duas formas. A seguinte (1970) é derivada do romantismo inglês, do poeta Keats, a capacidade negativa, que depende do caráter essencialmente humano, ou seja, não onipotente da experiência, de tolerar as incertezas, os mistérios as meias-verdades. As transformações analíticas surgem do vigor desta finitude, ou da modéstia de estar simplesmente aberto para o mistério.
Essa mesma constatação também se expressa de uma forma futurística, proveniente Nietzsche, ao considerar o ato de Fé (Bion, 1970): que significa estar disponível para o ato de criar, estar pronto para celebrar uma inovação semântica, uma nova forma de falar sobre a busca da verdade.
Portanto, o desejo de ser analista depende de uma transmutação transcendental, em que a saída do “oedipal gloom”_ encontra-se na recomendação feita por Freud de que o analista deveria dedicar uns bons anos de sua vida, senão a vida toda [5], buscando entender o que são esses desejos, como aparecem, e como podem se constituir em pontos cegos que aparecem em ações e interpretações contrárias ao movimento de transformação do analisando em si mesmo.
As propostas de Bion podem auxiliar na longa jornada de uma vida inteira tentando tornar-se analista. Vou tentar hoje destacar e desenvolver algumas ideias que nos colocam através das ideias de Bion em outra ontologia, uma que é anterior aos desejos.
III
Na observação psicanalítica fundamentada desde Freud nos sonhos, mitos, pensamentos oníricos, e, acrescento, pensamentos poéticos, é preciso encontrar e desenvolver a capacidade imaginativa.
Trata-se de algo que desabrocha e se desenvolve num leitor, no pesquisador, no pensador, e certamente tanto no analista como no analisando, sendo que os três elementos mencionados consistem em uma trindade encarnada no analista: leitor, pensador, pesquisador; nenhum deles chega a mesma conclusão, mas convivem na criação.
A palavra conhecimento, adquiriu uma nova dimensão em Bion, enquanto função de buscar significado, independente dos demais autores onde tem também sua dimensão própria.
A palavra conhecimento é semanticamente redescoberta quando se instala no contexto da abstração máxima, nomeada de vínculo K. Ela envolve o essencial de se renovar a cada sessão, colocando-se num início onde nada sabemos. Esse início não é desejo, mas a pré-concepção que precisa abrir caminho, como expectativa de futuro e não de desejo.
Conhecer em Bion não é simplesmente um modo particular de vínculo com alguma faceta do mundo interno ou externo, mas uma experiência emocional, uma situação que é própria do modo de Ser, que existe enquanto conduz a um tornar-se. Deste ponto de vista, conhecer não é conclusão, não é acumulação, mas aquilo que habita o espaço entre saber, Ser e tornar-se.
Temos aqui uma perspectiva eminentemente prática que assinala uma condição necessária à atividade analítica. Não se trata de descobrir como é preciso conhecer, mas o que se produz quando conhecemos. Essa é uma tradição que nos coloca num caminho que foi aberto por Aristóteles [6], e pela qual chegamos a ética psicanalítica, intimamente relacionada com a Teoria do Pensar (1962). Podemos resumi-la da seguinte forma: para pensar não basta querer, é preciso aprender a pensar. E só se aprende a pensar esperando o desconhecido inesperado. Nesse processo a paciência é quase tudo que precisamos.
O vínculo K é sempre projeto, ele sempre se atualiza em si mesmo, tem a semente da dimensão futura do tornar-se, e não do mero objetivo de aumentar o saber. Não era sem razão que Bion, ao escutar de algum paciente que tinha compreendido a interpretação dada por ele, dizia: eu tinha receio que fosses dizer isso [7].
Todo conhecimento produz o movimento de perda do Ser e um luto (com suas defesas) que inevitavelmente busca por atonement (reparação) e que pode evoluir para at-one-ment (tornar-se).
Sobre isso a última frase de Atenção e Interpretação (1970) fala o seguinte: Deve-se procurar uma atividade que seja tanto a reparação de deus (a Mãe) como a evolução de deus (o informe, infinito, inefável, inexistente), que pode ser encontrado somente no estado em que NÃO há memória, desejo, compreensão.
IV
A experiência pessoal e institucional, mostrou ao longo da história da psicanálise_ e continua mostrando_ que os pontos cegos edípicos são responsáveis pelo fato da psicanálise estar sempre em crise. Posso simplesmente lamentar, ou me conformar que seja assim, ou posso pensar que a crise é crítica por ser clínica, e seguir a sugestão de Bion (1979), em seu último trabalho: como tirar proveito de um mau negócio que é buscar ser psicanalista.
Em crise, a psicanálise nos fala de outro Freud. Um Freud ainda desconhecido, que está no futuro, e fala também daquilo que sabemos de Freud. Não saber e saber estão sempre nos acompanhando. Essa é uma das muitas razões essenciais para que busquemos trabalhar com simetrias.
Apesar de nossa finitude temporal_ ou o fato de que apenas uma vida não basta para tornar-se analista_ precisamos do futuro, sem o que nossos sonhos de ser psicanalista não podem ter alcance. Assim, desde sempre, na própria consciência de nossos conhecimentos, existe o Freud oculto nos mostrando o espelho do inconsciente e nos convidando a ver sempre a luz da clínica.
V
Na Conferência de Paris (1978), Bion nos apresenta no final um surpreendente poema, Vitral, de Jose Maria Heredia. Antes de apresentá-lo, como encerramento de sua fala, ele dá um depoimento sobre a luz da clínica:
É muito importante você estar ciente de que jamais ficará satisfeito com a carreira analítica, caso você sinta que se restringe ao que estritamente se chama de abordagem “científica”. Há que ter a chance de sentir que a interpretação que você oferece é uma bela interpretação, ou que você obtém uma bela resposta do paciente. Esse elemento estético da beleza faz que uma situação muito difícil se torne tolerável. É sumamente importante ousar pensar ou sentir seja lá o que você sinta ou pense, não importa quão pouco, ou nada, científico isso seja.
Vitral. Este vitral viu senhoras e imponentes barões brilhando com azul, ouro, brilho, e madrepérola de seus trajes, reverenciando-se, sob o augusto poder que os consagrou, O orgulho estampava em suas frontes e de seus séquitos; quando ao som de trompetes ou cornetas, com espada na mão, falcão no punho, e coroação de nobreza, se foram pela planície ou pela floresta, e dali para Bizâncio ou São João de Acre; partiram para a cruzada como uma revoada de garças. Hoje, os senhores ao lado das castelãs, com o galgo de seus esguios potros, recostam-se sob as telhas de mármore branco e preto; e ficam ali sem palavras, sem gestos e sem nada ouvir; olham com seus olhos de pedra, sem ver, a rosa do vitral ainda em flor.
Imaginemos o vitral da clínica. Todos nós gostaríamos de ver, através de seu todo, como um espelho que reflete e assim acaba com o mistério das sombras. Todavia, com esse desejo não podemos ver nada. Ofuscados pela intensidade misteriosa da clínica, existe o risco de recorrer a memória que fecha nossos olhos. Se fazemos isso logo ficamos re-voltados contra o Freud que não nos deu tudo que precisamos, para achar que podemos mudar as coisas, curar, explicar, aliviar a dor. Neste ponto, encontramos o não poder; o vitral é verdadeiro, mas sua complexidade e demasiada abrangência dissolve a clínica de ontem, não é espelho. A sessão de hoje nivela tudo a tudo, não dá o poder de se diferenciar quem de quem. Todos se equivalem no não poder ver quando existe a cegueira da memória e do desejo.
Com o poder da teoria fragmentamos o vitral, que esperamos ser algo que junta fragmentos e seja espelho. Mas os fragmentos que o compõem não sendo abrangentes, apesar de nos facultar proceder por partes, iludem na certeza crítica de assim podermos ver a luz da clínica. Ao olharmos os fragmentos, ignorando a simetria e a complexidade da dialógica luz e sombra do vitral, não podemos ver a luz que o atravessa. Só vemos a nossa própria imagem. Ofuscados pelo poder da teoria, que supõe refletir o vitral, perdemos de vista a clínica.
VI
Em toda crise de conhecimento, mora a clínica de uma onipotência. A onipotência caracteriza nossos desejos e expõe nosso desamparo na experiência de compreender e ser.
A onipotência nasce talvez primeiro da dificuldade em tolerar a diferença da realidade da vida_ o tempo. Sinônimo disso é intolerância à frustração, trazida por qualquer aproximação da verdade_ o espaço. Se estivermos pressionados por respostas estaremos buscando pelo simplismo das teorias causais eliminar a diferença e assim eliminar a impotência ou o desamparo de alcançar a verdade.
Reclinando-se na tolerância da diferença, a crise se inclina sobre a impotência para declinar uma onipotência. É neste múltiplo movimento de clinicar que a crise é a clínica de uma simetria onipotência-desamparo.
Na clínica, a turbulência do encontro, coloca em jogo a clínica da onipotência de uma consciência do inconsciente. Refletindo, que toda luz da consciência obscurece quanto mais esclarece, o espelho das palavras não dá o poder de acabar com o mistério das sombras. Mostra, ao contrário, o mistério da própria claridade. É o espelho da crise no vitral da clínica. De seu espelhar provém a experiência de pensamento envolvido com a verdade inacessível que expõe no movimento dialógico a clínica da simetria onipotência e desamparo.
Em toda dialógica, nos encontramos com a complexidade de uma clínica que não é dialética, e nem de objetos do pensamento, mas a clínica do sujeito do pensamento.
VI
“A verdade habita as profundezas” é uma frase do poeta Schiller [8], que foi citada por Werner Heisenberg no final de seu livro A parte e o Todo. Um dos muitos significados é que quanto mais fundo estamos indo, mas a verdade se afasta.
Heisenberg, logo em seguida diz:
“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido em o que podemos dizer de forma clara e o resto, sobre o que é melhor passar em silêncio. Mas pode alguém conceber uma filosofia mais inútil, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se nos omitirmos sobre tudo que não é claro nós provavelmente ficaríamos com tautologias completamente desinteressantes e banais."Um exemplo de tautologia é a expressão elo de ligação: não existe elo que não ligue, trata-se de uma repetição desnecessária.
Para trabalhar com o sujeito do pensamento, para onde se convergem os desejos, sejam eles quais forem, me posiciono contra o positivismo, contra o determinismo, contra a causação, e a favor da complexidade nas observações psicanalíticas. A fazer isso proponho abraçar uma mudança de paradigma e desenvolver algumas ideias sobre questões da prática e da teoria psicanalítica.
O sujeito do pensamento, longe de ser uma questão simples, é um reduto muito bem escondido, uma expressão do que Kant chamava de “ arte oculta nas profundezas da natureza”. Uma expressão que faz eco à frase de Schiller. A arte, em questão, é a arte do pensar psicanalítico.
Sempre precisamos de uma forma imaginativa de pensar sobre as vicissitudes do vínculo analítico. Nesse vínculo há um ponto complexo que podemos chamar de ponto de indecidibilidade da origem. Nele perdemos a certeza da posse de qualquer saber, e somos convocados para a incerteza e incompletude de todas observações, onde a saída está na capacidade imaginativa.
Esse ponto, uma vez atingido, pode ser descrito como contato com o primordial, ou de cesura, momento de conflito entre continente e conteúdo. A primeira experiência na vida desse tipo é chamada de “feto a termo” buscando vir à luz para ser acolhido pela mente de uma mãe.
Podemos sempre tomar a metáfora da mente embrionária prestes a nascer em todos momentos da vida em perspectiva simétrica com a mente já nascida, pós-natal.
Em outras palavras, a vida supõe uma contínua transição entre dentro e fora, através de uma cesura - símbolo do limite infinitamente plástico entre a vida intrauterina e a vida extrauterina. Significa a transição de um mudo regido pelo acaso para o mundo regido pelas escolhas. Essas duas possibilidades continuam existindo, e o momento de confronto traz turbulência emocional.
A turbulência pode evoluir se considerarmos que nessa mente embrionária, existem junto a temores profundos, a sobrevivência de algum tipo inédito de capacidade de intuir, sentir, ver e ouvir. O risco é que o inédito pode ser diagnosticado por algum raciocínio que diagnostica, avalia, ou julga como uma crise a ser eliminada. Todavia, a hipótese a ser buscada pela psicanálise é aquela que informa sobre o Ser necessário para viver: o Pensar.
Em outras palavras, existe um conteúdo de tempo-espaço antes do nascimento físico que é regido pelo acaso, que por sua vez é produto das escolhas do continente_ que é a mãe. Essa relação de desenvolvimento se encaminha [9] para uma cesura onde aparece a crise entre continente e conteúdo, e como em qualquer crise aparecem emoções que não conseguiram atingir um ponto onde podem ser conceituadas, ou verbalizadas (1965). Uma Grade das emoções poderia ser necessária neste ponto, como índice de reflexão, mas sua forma é quase uma tarefa inconcebível.
Por conta da impossibilidade atual, continuamos precisando inventar palavras ou usar termos provenientes de outras disciplinas, que podem ser termos obstétricos, ou podem ser termos da arte, da poesia, da filosofia, da física quântica, da matemática, etc. De qualquer forma é sempre muito difícil encontra equivalentes em linguagem para essas constantes experiências primordiais. Mas é o melhor que conseguimos fazer até o momento.
VII
Freud, em suas observações metodológicas, foi um exemplo de escrita e invenção de palavras, onde imprimiu honestidade intelectual e independência institucional. Isso lhe permitiu nunca afirmar que suas teorias eram definitivas ou completas.
Essas três características éticas do método investigativo da mente inconsciente são fundamentais para os psicanalistas, e deveriam ser para todos os cientistas. A ética é sempre uma experiência decisiva quando sabemos que os modelos são pobres e falhos e os princípios precisam ser ampliados.
Quando o método psicanalítico se torna objeto da complexidade, isso significa enfatizar a criatividade na observação, observar sua problemática, enfrentar os meandros, os intrincados, os limites que fogem ao previsível e o acaso, sem cair em alguma armadilha filosófica, ou nas famosas polêmicas medievais, aquelas que no entender de Umberto Eco nunca chegam a lugar algum, mas servem para gastar muito tempo, dinheiro, e manter certas pessoas em posições de poder.
O que é complexidade da psicanálise? Quando faço essa pergunta não existe uma espécie de conhecimento prévio que possa me levar a ela. Não encontramos no anteceder da psicanálise o que habitualmente se descreve na evolução de uma ciência, de uma arte ou de uma religião.
Não existe uma suposta cadeia causal que a precede, como ocorre na Física, que podemos seguir em fases, aristotélica, newtoniana, einsteiniana, quântica.
A questão também não é de absoluto cunho histórico; ou seja, não tem tanto significado em como começou e como se desenvolveu até hoje, pois a psicanálise não está concluída. São itens muito valorizados enquanto se esquece que existe muito a ser feito.
Não obstante, a questão é carregada de historicidade, ou seja, carrega em si um destino: o nosso destino como ser humano, tanto individual como coletivamente. Nada como o mito de Édipo para falar desse destino.
Ao penetrar no sentido pleno e originário da questão, o que é a psicanálise, penso no texto Transformações (1965), onde imagino que a resposta começa com a menção de um caminho num campo de papoulas pintado por Monet. Nas entrelinhas dessa citação, penso que está implícito que na psicanálise precisamos buscar um novo caminho. Trata-se da arte de buscar um caminho, onde o que é a psicanálise é a própria questão, o próprio caminho que não existe até ser trilhado.
Em Transformações (1965) as mudanças são descritas como catastróficas, não no sentido do desastre, mas da catástrofe matemática, que nos informa com metafísica e epistemologia, nas mudanças de estado mental, que precisamos de alinhamentos com pontos fundamentais para a vida psíquica - que são parte do mais complexo campo que conhecemos.
VIII
Eu disse a pouco, sugerindo metodologia, que o melhor que conseguimos fazer é inventar palavras para lidar com emoções primordiais, experiências primitivas, e sombras do futuro. Posso especificar que faço isso para cuidar de uma ontologia supondo que possa salvar nosso pensamento e nossa coerência. Mas quando chego no que arqueologicamente imagino ser o ponto de partida ele só pode se recolocar como mito. Talvez isso justifique falar que “O” é tanto Onthos como Opus.
A ontologia em Bion, nomeada como pré-concepção, antecede a ontologia humana dos desejos, e se orienta totalmente para a ideia de criação, e é algo que certamente requer uma epistemologia que a afaste das crenças e hábitos vazios. Reconhecer no uso do mito uma expressão dos desejos humanos, como publicação, não é reconhecer uma lenda ou seja, uma história sem verdade mas tem o sentido de obter o vigor da palavra: a verdade mais profunda de toda história.
Em outras palavras, a pré-concepção edípica e todas as concepções que dela deriva enquanto criação, não possui nenhum conteúdo de valor. Ontologia como metafísica nos remete a Aristóteles e chega até Kant mostrando que é impossível separar reflexão sobre o Ser e teoria do conhecimento_ que, por sua vez, precisa da ética.
A ética da observação psicanalítica que usa os sonhos, mitos e pensamentos oníricos, irrigados pelo coração pulsante que é o mito de Édipo, mostra que fazemos uso das metáforas onde existe o valor da pré-concepção. Todavia, em primeiro lugar, elas requerem um cuidado especial, pois podem ser simplesmente um desvio criativo da linguagem que ao longo dos séculos tinha intenção de agradar, e até gerar intrigas e exercer ironias para se opor a qualquer mudança (1965).
Note-se que não existe um dicionário das metáforas, um regramento das mesmas, pois elas estão livres de regras científicas. O que ela faz é estabelecer um surpreendente parentesco de palavras distantes, assim na metáfora, a linguagem sofre uma transformação que a faz dizer coisas mais do que normalmente diz. Ao significar mais, a metáfora revela aspectos da nossa experiência que pediam para ser ditos, mas que não podiam sê-lo pela dificuldade de se encontrar a expressão apropriada na linguagem cotidiana.
A função da metáfora é, portanto, fazer vir à linguagem aspectos de nossa maneira de viver, nossa forma de habitar o mundo, de se relacionar, e que permaneceriam mudos sem essa faculdade singular que tem a linguagem de ir além de si mesma. Longe, portanto, de ser simplesmente ornamental, como ocorre na retorica demagógica e nas narrativas, a metáfora é um detector de experiências raras e emocionais. Em outras palavras, dentro da teoria de Bion é o que dá significado à experiência emocional retirando-a do ponto máximo de abstração para algo observável num vínculo.
Melhor dizendo, na psicanálise, começando em Freud, o modelo metafórico é uma tradução teórica da aproximação que faz, durante o trabalho com seus pacientes, de um limite bem específico, que considera observável, e que nunca havia sido colocado em palavras. Para uma melhor aproximação podemos sugerir interpretações que coloquem em relação a simetria dialógica, mas nunca chegaremos a interpretação correta ou completa.
IX
A noção de simetria provém de conceitos matemáticos que tem como objetivo determinar o comportamento de uma função à medida que ela se aproxima de alguns valores, quando está relacionando dois conjuntos.
Podemos como exemplo, destacar a confusão de valores derivada das transformações em alucinose, trazidas, por exemplo, pelo excesso de uso da inteligência artificial, e pela admiração abusiva do homem pela máquina, enquanto se afasta com desprezo da admiração poética da natureza viva.
A confusão de valores é sempre o resultado da dor psíquica e de como a função alfa falha em lidar com ela, fazendo com que o indivíduo tome o caminho da parte psicótica da personalidade, assim tornando-se vulnerável ao crime, ao ataque social através dos preconceitos, à indiferença emocional pelo sofrimento alheio, à falta de sinceridade, e ao desprezo pelo sentido das coisas vivas.
Enfrentamos esse problema o tempo todo na psicanálise, enquanto através da função psicanalítica da personalidade tentamos relacionar pensamento e linguagem.
O mesmo problema existe quando tentamos relacionar o psíquico com o somático. O problema principal sobre a função que relaciona dois conjuntos, é destacar o limite, o qual podemos chamar de cesura. Na poética trata-se de uma pausa no interior de um verso, na psicanálise trata-se da mente e seu mistério.
A teoria freudiana, até um certo ponto, coloca a sexualidade, e sua ontologia naturalmente biológica, como questão central da psicanálise; entretanto, Freud nunca afirmou que a pulsão é exclusivamente sexual, e sim que era predominantemente sexual. Se em algum momento esquecemos disso, e a colocamos como exclusiva, o fazemos para recusar outras questões, tais como as ideias de limite e de função. Em outras palavras, a observação fica sempre em aberto indagando a propósito de que a sexualidade de fato se liga? Quais os conjuntos que estão em relação? Qual a função que devemos enfocar?
De uma maneira geral, uma discussão como essa coloca em questão a verdade dos modelos e a verdade da psicanálise.
Bion, relendo mais amplamente o mito de Édipo (1957, 1963, 1975), sugere que a sexualidade é uma questão periférica de um contexto cuja questão metafísica central que é a busca da verdade. Assim coloca o conjunto mais profundamente subjetivo de todos para trabalhar em psicanálise. Essa proposta estabelece um espectro de possibilidades, em que no centro do espectro, como indecidibilidade da origem, está a verdade, que pode se estender de um lado para o polo da sexualidade, e para outro lado vai em direção ao polo das falsidades e mentiras. Portanto, graus de distorção da sexualidade correspondem a graus de distorção da verdade. Isso nos permite enfocar problemas de uma forma distinta, através de transformações, por exemplo, se existe uma perversão a questão não está apenas na perversão da sexualidade, mas na prática da mentira e da alucinose.
A solução alcançada com o modelo espectral permite trabalhar com a simultaneidade de eventos psíquicos e somáticos opostos em invariância, como sistema aberto, ou seja, no modelo espectral, vemos possibilidades colocadas no mesmo plano, e se relacionando interpretativamente por simetria, e não através de dialética determinista. Essa é em linhas gerais a forma do modelo complexo de observação.
Sabemos também que Freud colocou a questão da pulsão de morte como conjunto de fenômenos a ser trabalhado simultaneamente com a sexualidade. Mas a morte em si não tem como ser trabalhada, e sim fenômenos de destrutividade e de poder que tiram a liberdade para pensar e viver. Em outras palavras, por mais que a teoria tenha se desenvolvido muitas vezes de uma forma que isola os fenômenos, se adotamos a complexidade não podemos fazer esse splitting na observação destes fenômenos, assim liberdade precisa ter simetria com problemas de opressão, e segurança com questões de incerteza, etc.
A clínica psicanalítica trabalha com os limites e as limitações produzidas por quaisquer aproximações a realidade psíquica que nossas teorias traduzem. Mas temos sempre que levar em conta as limitações inerentes ao próprio ser humano. Splitting como o acima descrito é necessário para determinadas ocasiões, mas o progresso da psicanálise necessita de avanço e superação destas teorias.
A Teoria do Pensar de Bion forneceu um grande avanço para lidar com nossas limitações, ao abordar nossa capacidade para pensar como o problema principal. Deste modo, Bion propõe uma outra forma de pensar a psicanálise, que fica muito clara enquanto projeto no texto Transformações (1965).
A aproximação que Bion faz ao limite entre o somático e o psíquico, usando a teoria da pré-concepção, foi altamente intuitiva, pois ele não tinha conhecimento que a teoria correspondia aos conceitos biológicos modernos de neotenia.
A neotenia não é uma ficção, é uma teoria que mostra como o ser humano tornou-se o único mamífero que geneticamente reduziu os fatores inatos para poder aumentar a capacidade de aprender com a experiência e se desenvolver a partir de uma total imaturidade que revela ao nascer. Essa Imaturidade nunca é eliminada totalmente, enquanto o ser humano estiver em evolução. Mas é responsável por esse processo evolutivo ao criar os grupos, a linguagem, o pensamento, a percepção do tempo, o domínio do espaço, bem como criou elementos opostos de onipotência, religião, dogmas e destruição de diferenças por intolerância ao pensar.
A mudança na constituição do ser humano contemplada pela neotenia foi uma questão de sobrevivência, continua sendo, e foi observada por Bion não através da dualidade prazer versus realidade, mas através de três princípios de vida (1979). Nestes três princípios entram as características fundamentais do ser humano, os sentimentos, os pensamentos antecipatórios, a integração de pensamentos com sentimentos e a Ética.
A Ética é o fator fundamental de evolução humana, sem ela a barbárie bate rapidamente as nossas portas.
A redução dos fatores inatos fez com que o ser humano desenvolvesse a subjetividade e a abstração, que desembocam na criação da linguagem e do pensamento. O que o ser humano tem de qualidade para sobrevivência fixada no DNA_ fixação que é a característica de todos os seres vivos_ é a informação de buscar uma mente que lhe garanta primeiro a sobrevivência, e depois a experiência emocional. Esse único traço genético geral (não estou considerando os particulares físicos ou externalização fenotípica_ de variabilidade infinita) expõe a imaturidade humana que pode seguir a direção da destrutividade ou da criatividade, dependendo das experiências adquiridas e incorporadas.
X
Quando um psicanalista estuda o produto de seu trabalho está tratando de um evento que denomina de sessão analítica. Podemos distinguir pelo menos oito diferentes facetas nesses eventos, cada qual correspondente a um aspecto diferente e com mistérios a ser desvendados, todos inerentes a existência de uma mente inconsciente.
Em primeiro lugar, encontramos o entendimento do conteúdo da sessão, e quais as possibilidades de extrair conceitos e proposições psicanalíticas, e se podemos transpô-los para uma linguagem psicanalítica durante a sessão seguinte. Esta faceta corresponde na Grade de Bion à hipótese definitória, coluna 1. No mito de Édipo, sugiro que corresponderia ao Oráculo de Delfos consultado por Édipo. O emprego do mito pode nos trazer a imagem, que sempre vai requerer pensar mais sobre esse ponto.
Em segundo lugar, temos a trajetória temporal do conhecimento a ser compartilhado. A experiência privada de concepções precisa transitar para a pública, através de conceitos, que podem ter uma linguagem específica vinda de alguma teoria psicanalítica. Todavia, a teoria pode não se aplicar, por ser insuficiente, inadequada ou inexistente para a experiência. Cabe então indagar se a interpretação, seguindo uma escolha teórica, foi dada no momento certo, ou foi proferida muito cedo, ou muito tarde? Talvez, uma discussão entre prematuridade, pós-maturidade, maturidade, possa ser feita.
A relevância deste tipo de avaliação surge em virtude do desconhecido, que desperta reações que podem produzir um ponto de distribuição de destino, ou seja, na dupla face verdadeiro ou falso. Corresponde ao que Bion chamou na Grade de coluna 2 ψ.
No mito de Édipo, a imagem sugerida corresponde ao personagem Tirésias. Cego por contrariar a deusa Hera, enxerga o futuro com o dom da profecia legado por Zeus. Todavia, tendo o conhecimento, ele pode desviá-lo para a banalidade, a desistência, a falsidade, como alternativas mais cômodas do que buscar a verdade. Tirésias se opõe ao desconhecido, faz o papel de quem intriga separando o casal sexual do conhecimento aberto. Tirésias, amaldiçoado por negar sua função, separa Édipo da Verdade, fecha o conhecimento, e o une ao medo de ser quem não quer ser, até que o próprio se torne também amaldiçoado. Podemos indagar a identificação projetiva excessiva nessa imagem colada de Édipo e Tirésias.
Em terceiro lugar, está o aspecto singular, mais efêmero, da atividade que surge através de uma narrativa histórica, fatos relatados pelo paciente como relevantes. Este é o contexto da descoberta que pode não estar bem documentado e não ter sido apreciado e compreendido nem mesmo pelo próprio psicanalista. Em que ponto começou a transformação? Corresponde na Grade à coluna 3 da Notação.
No mito de Édipo, corresponde a imagem da encruzilhada de Delfos e Daulios. Trata-se aqui da diferença entre a história verdadeira e a história fictícia. Não só a história difere do relato ao recusar a narratividade (nunca absolutamente), mas, além disso, tem a pretensão de dizer o que realmente ocorreu. Ora o que realmente ocorreu perdeu-se para sempre, fazendo do historiador, o herdeiro de uma dívida para com a verdade. Sua tarefa é restituir o ausente, assim diferindo da ficção que parece completa.
Todavia, reconhecendo que há sempre ficção na história, assim como há sempre verdade na ficção, nos permite estar livre do contexto moral, e perceber que a história é mais fictícia do que acreditam os positivistas e cartesianos: ela não é jamais a pura reconstrução dos acontecimentos. Trata-se de uma reconstrução fictícia de acontecimentos impossíveis de se encontrar no presente. No sentido contrário, por trás da narrativa da ficção, há sempre uma experiência verdadeira que aspira a ser contada, que grita para ser ouvida, mas num nível tão profundo que nunca é vista. Nesse momento surgem as famosas narrativas do ouvir dizer, que instala uma gritaria ensurdecedora de uma verdade inalcançável pela narrativa em si.
Igualmente, no sentido contrário, existe a choradeira incessante daqueles que não toleram nada além de suas versões oficiais. Esses querem impor uma censura, impedir a cesura, determinar o que pode e o que não pode ser interpretado. Querem um analista que se adapte a eles, que para tal precisa deixar de Ser quem é.
Um quarto componente é o estabelecimento da trajetória interna espacial da atividade psicanalítica, o ponto onde as continuidades e descontinuidades pessoais, no desenvolvimento ou no processo de elaboração, é acompanhada por uma atividade de escolha que se denomina de Atenção, coluna 4 da Grade, e corresponde na mitologia à Esfinge.
Quinto componente, a comunicação privada não pode ser traduzida em seu todo, pois o trabalho científico que pode ser publicado tem conexões com o estilo de vida íntima, singular, passível de revelação pública. Neste caso, a atividade se transforma apenas em Indagação, que corresponde a coluna 5, e que não será registrada. No mito seria o papel destinado ao próprio Édipo, e suas três perguntas: de onde vim, para onde vou e quem sou eu.
O fato de termos esta abertura de três questões complexas e sem respostas definitivas, estabelece os próximos passos que só podem existir num campo de Ação, o que determina que a coluna 6 da Grade tenha exatamente essa designação.
No mito, chegamos a uma amplitude de escolhas, pois ao falarmos de consequências necessitamos de mitos auxiliares ao mito de Édipo, como por exemplo o mito de Prometeu, Ícaro, ou o mito de Satã.
A coluna 6 sendo um campo de Ação se desdobra indefinidamente, e, portanto, estando em sistema aberto, permite colocar uma coluna sete que leva em conta o ambiente sociológico das ações e de suas condições de influência em colegas da instituição, a dinâmica das instituições que recebe essas influências, o grau de evolução em que estas se encontram, bem como a evolução cultural da comunicação publica, as influências mútuas entre ciência e sociedade, ciência e ética, ciência e literatura, em uma sociedade cultural específica.
A coluna oito poderia incluir a análise da lógica da produção científica. Ela sempre estará, apesar de feita no presente, existindo como demanda constante num momento futuro por algo ainda a ser feito. A questão é até que ponto cede aos modismos do momento, para num momento futuro ceder a outro modismo, até acabar asfixiada pelas demandas consumistas.
As oito colunas não são estanques e separadas por barreiras inflexíveis. Cada uma tem sua especialização própria e, com isso, sua própria auto definição operacional como se representasse uma área do conhecimento psicanalítico.
A tendência a criar falsos heróis, psicanalistas da moda, em cada uma dessas áreas, é tentadora, por isso captei os heróis, não no ambiente psicanalítico, mas pelo uso da mitologia grega, embora essa aplicação sempre corre o risco de levar a estratégias reducionistas cujo emprego é imposto pelas nossas limitações humanas diante de um fato tão complexo.
Podemos para refletir sobre esse problema criar uma coluna 9, que seria a análise temática das decisões interpretativas dos analistas e dos efeitos que tem em áreas específicas da vida dos analisandos.
A análise temática é um termo familiar em Antropologia, Crítica de arte, Musicologia. Talvez, na maioria desses campos, os conceitos possuem elementos que funcionam como temas impostos pela cultura, forçando e por vezes guiando (normatizando) ou polarizando a comunidade.
Essa questão temática tem de qualquer forma uma forte atração para os cientistas ou para a comunidade científica, e podem ser o aspecto mais interessante de um determinado caso, onde há partes importantes da história da ciência e do trabalho atualmente sendo feito das quais não parecem participar com destaque.
Mesmo que isso não fosse verdade, eu não gostaria que se pensasse que os temas de um trabalho de psicanálise são a sua realidade principal. Se isso acontecesse, o trabalho na história da psicanálise degeneraria em descritivismo e as descobertas psicanalíticas pareceriam estar à altura das histórias antigas, ou seja, contos e narrativas não confiáveis.
Há na ciência, e na psicanálise, uma sequência de refinamentos, uma ascensão e queda, e ocasionalmente o abandono ou introdução de temas. Mas também tem havido, sem dúvida, em conjunto uma mudança progressiva para uma compreensão mais inclusiva, mais poderosas, dos fenômenos culturais. Mas essa inclusão precisa manter o viés psicanalítico, pois, caso contrário, as questões vão ser questões equivocadas e obteremos respostas equivocadas.
O estudo do papel dos temas na obra de psicanalistas pode igualmente ser interessante, quer o trabalho leve ao “sucesso” ou “fracasso” _ a aceitação de uma série de temas não faz com que o psicanalista automaticamente se torne certo ou errado. De qualquer modo, as tentativas de livrar-se de temas para melhorar o desempenho psicanalítico são provavelmente inúteis. Mas um exame dos possíveis méritos de temas contrários aos nossos poderia ter efeito salutar.
Precisamos conhecer mais sobre as origens dos temas, pois em grande parte a maioria que passa pela imaginação de um cientista, e obviamente do psicanalista, lhe ocorrem antes que ele se profissionalize. Alguns dos temas persistentes são evidentes já na infância.
Notas
1 Shakespeare, W., A Tempestade, editora dimensão, 1996.
2 Sagan, C. Cosmos, Co. das Letras, 2017.
3 Sparrow G., 50 ideias de astronomia que você precisa conhecer, Planeta, 2022.
4 A New Companion to Milton, Editor(s): Thomas N. Corns, 2016, Copyright © 2016 John Wiley & Sons, Ltd.
5 ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL (1937) NOTA DO EDITOR INGLÊS DIE ENDLICHE UND DIE UNENDLICHE ANALYSE (a) EDIÇÕES ALEMÃS: 1937 Int. Z. Psychoanal. 23 (2), 209-40. 1950 G. W., 16, 59-99. (b) TRADUÇÃO INGLESA: ‘Analysis Terminable and Interminable’ 1937 Int. J. Psycho-Anal., 18 (4), 374-405. (Trad. Joan Riviere.) 1950 C.P. 5, 316-57.
6 Barnes, J. Aristóteles, Ideias e Letras editora, 2009.
7 Grotstein, J.; Gooch, J. (comunicação pessoal).
8 Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo, médico e historiador alemão. Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século XVIII e, assim como Goethe, Wieland e Herder, é um dos principais representantes do Classicismo de Weimar, e é tido como um dos precursores do Romantismo alemão. Sua amizade com Goethe rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura alemã.
9 Considero que nessa dimensão outro mecanismo opera, denomino de imaginação radical. Esse mecanismo se origina dos “atratores estranhos” produzidos pela ação do continente, que criam as combinações sensoriais da moldura (pré-concepção) que irá receber a paisagem do mundo externo, na interação com a mente da mãe e demais elementos da realidade externa, dando a essa paisagem a singularidade que foi preparada para se realizar em concepções e conceitos.



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