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O Tempo (Aula inaugural SPRJ 2026)

  • há 6 horas
  • 20 min de leitura

Escrito por Arnaldo Chuster [1] para a Aula Inaugural SPRJ 2026


Em primeiro lugar, gostaria de registrar minha satisfação e meus agradecimentos pelo convite para ministrar esta aula, que marca o início das atividades de ensino na SPRJ em 2026.


O termo gratidão, na língua portuguesa, possui um significado muito particular e distinto da maioria dos idiomas no mundo. Tomás de Aquino, em sua obra Tratado da Gratidão, destaca que ao expressarmos agradecimento em português, utilizamos a expressão “muito obrigado”, com isto evidenciamos uma obrigação por quem nos favoreceu. Outros idiomas, inclusive os demais latinos, não fazem isso. Para Aquino, a língua portuguesa consegue expressar gratidão em seu sentido mais profundo, caracterizada pelo reconhecimento explícito de um vínculo que se estabelece.


É interessante observar que o conceito é discutido na psicanálise por Melanie Klein em Inveja e Gratidão (1957). De acordo com a autora, a gratidão implica em reparação e formação de vínculos, enquanto a inveja tende a desfazê-los. Vejam, aqui uma ideia_ como incontáveis vezes acontece na História da Humanidade_ renascida e melhorada pelo tempo.


Tempo que segue, preciso mencionar meu ethos na instituição para quem falo: Minha trajetória na SPRJ, iniciou há 52 anos, em janeiro de 1974, quando realizei as entrevistas para ingressar na formação. Todavia, esse vínculo se estabeleceu antes desse período, durante minha época como estudante de Medicina, sendo incentivado à formação pelo meu professor de Psiquiatria, Sebastião Salim, na FMUFMG. Antes, disso foram as conversas e os livros de Freud, na biblioteca do meu pai, também professor de Clínica Médica da UFMG. Havia naquela época, como agora, um sentido de aventura no tempo, uma viagem de descoberta do futuro.


A esse propósito, cito um poema de um autor que admiro profundamente José Saramago: A vida, esta vida que, inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece nestes nossos dias, ter parado no bem-me-quer.


Sem sair da poesia e da ficção, vou para a clínica, relatando uma sessão de um analisando de W.R.Bion, e que tem a ver com nosso tema de hoje. 


O analisando, um amigo de longa data de Los Angeles, me autorizou a relatá-la.  Essa sessão ocorreu em 1976, dois anos antes de Bion voltar para a Inglaterra, e que considerou muito marcante no seu processo. 


Previamente à apresentação de hoje, realizei a confirmação dos dados que havia registrado, ciente de que o tempo_ nosso tema de hoje_ obviamente pode acarretar alterações em informações pertinentes. O texto a seguir passou por sua revisão.


M. Hoje quase não consegui vir a sessão, pois joguei uma partida de tênis muito intensa e dei um jeito nas costas. Apesar de ter tomado um miorrelaxante, ainda está muito dolorido, e nem sei se vou conseguir me deitar no divã. (M. me conta que não percebeu ter falado isso com má vontade, hostilidade e/ou desdém, mas acredita que possa ter sido).


Bion: Quanto a isso a psicanálise nada pode fazer, tampouco ela elimina eventuais dores da vida...fique à vontade para ir embora para sua casa se nada tenho a fazer por você.


M. me relatou que ficou irritado com a intervenção de Bion, ela soava irônica e, portanto, respondeu de forma irônica: Really!! Dr. Bion?


Bion: Really Dr. M... a vida passa e se você não vivê-la como escolhe, não terá aproveitado seu tempo. O tempo perdido não pode ser recuperado. Outras coisas talvez possam, mas nunca o tempo que se perde. Imagino que foi isso que você veio apesar de todas as dificuldades.


M. conta que ficou ainda mais irritado com o que lhe pareceu no momento uma espécie de lição de moral e retrucou ainda mais irônico; Really, Dr. Bion?... I would never Guess if you never told me (Eu nunca imaginaria isso se nao me dissesse).


Bion: Really and very Real…


M. diz que seu incômodo aumentou mais ainda. Parecia que o sarcasmo aumentava a cada resposta de Bion. E disse: Dr. Bion, o segundo really é um espelho do seu primeiro ou do meu? 

Bion: Temos aqui um jogo de raquetes da marca Really, elas são iguais, mas isso é irrelevante se for apenas um bate e rebate. Caso seja isso mesmo, tem certeza de que quer continuar nesse jogo, eu sou muito bom nele; é o esporte nacional na Inglaterra.


M. perplexo diz: Dr. Bion, inicialmente você ironiza a minha dor, depois ironiza a minha ironia, e finalmente é sarcástico com sua pretensa habilidade de me vencer numa disputa intelectual.


Bion: Penso que você fez uma descrição bem detalhada do que parece estar acontecendo aqui como sendo algo que não devia estar acontecendo. A experiência que está sendo vivida tem uma perspectiva diferente quando conseguimos estabelecer essa simetria, podemos tirar várias coisas dela, inclusive meu erro em ser, na sua opinião, sarcástico. Todavia, ainda que pareça uma má análise, abrimos a possibilidade de tirar algum proveito. Ambos abrimos a possibilidade de Ser quem somos e isso significa que o analista está abrindo um tempo de sessão para o seu paciente, isso também ocorre no sentido inverso, ambos dedicamos aqui algo muito valioso, que é o tempo de vida. O tempo não volta.


A sessão introduz o propósito de nosso encontro de hoje, que é investigar, e ao mesmo tempo estimular um diálogo sobre a relação do tempo com a prática analítica.  Trata-se de um assunto que não consigo desenvolver fora do contexto da complexidade. Espero ao longo da exposição esclarecer essa proposição.


Confio que os colegas saibam que ao mencionar a complexidade não me refiro a nenhuma ideia popular, que geralmente denota algo confuso ou difícil de entender, mas do vértice científico desenvolvido por Edgar Morin [2].


A complexidade é um método científico de observação que se antagoniza com as ideias deterministas e positivistas, pois não trata de relações lineares de causa e efeito, e abrange interações abertas, quantidades que desafiam nossas possibilidades de cálculo, inclui incertezas, indeterminação, fenômenos ao acaso, múltiplas causas, caos e até mesmo a sorte.


Basicamente trata das relações do ser humano com o desconhecido, portanto, dos limites do conhecimento, e das demandas para criar ideias e expandi-las. Trata-se do futuro e dos desafios do ser humano para se humanizar cada vez mais.


O vértice da complexidade demanda pensar e repensar tudo que nos inclina a ter certezas. O seu desenvolvimento na ciência ganhou um enorme impulso com a criação dos sistemas dinâmicos abertos, que são sistemas espectrais, presentes em várias teorias, começando por Poincaré, chegando a Einstein, Kurt Godel, Niels Bohr, Heisenberg, e nas teorias dos fractais, do Caos, da Catástrofe, todas responsáveis por mudanças paradigmáticas significativas na ontologia, epistemologia, metodologia, logica e prática.


Os sistemas recebem esse nome porque são o resultado de mudanças através de um fator essencial: o tempo. Tempo é o fator essencial em todos os sistemas complexos, espectrais, dinâmicos e abertos, e naturalmente em todas as mudanças catastróficas que ocorrem nesses sistemas. 


As teorias sobre sistemas abertos e complexos seguramente influenciaram diversos conceitos em Bion, e para chegarmos neles, vou fazer um percurso pelas ideias contemporâneas sobre o tempo.


Pelo vértice científico, quando se fala de tempo na ciência não podemos deixar de imediatamente pensar em Einstein. Sabemos que dez anos antes de descobrir a teoria da relatividade geral, ele compreendeu que tempo e espaço não são entidades separadas, mas, dois aspectos de uma mesma entidade. Essa descoberta, que recebeu o nome de relatividade restrita, buscava solucionar o que pode ser chamado de mistério do tempo [3].


Einstein, demonstrou o vínculo indissolúvel do tempo com a matéria, assinalando as mudanças que pode imprimir sobre ela, modificando-a e reordenando as relações espaciais. Isso significa que a matéria é atravessada pelo tempo, que lhe confere o montante de plasticidade que molda o espaço. 


O tempo é o agente constante de mudanças catastróficas (mudanças em que não há retorno ao estado anterior). Em outras palavras, o tempo é uma cesura permanente, uma potência do “entre”, ou seja, a potência da transitoriedade, de tudo que está “de passagem” de um meio para outro, ininterruptamente, manifestando-se nos interstícios mais íntimos da matéria, conferindo-lhe existência que se altera incessantemente. Portanto, tempo significa Transformações.


Não é difícil inferir a importância de pensarmos a psicanálise em termos de Transformações e de que forma essas se relacionam com o tempo_ foi o que fez Bion através de uma dialógica que incluiu arte, psicanálise, matemática, geometria, filosofia, e física quântica (Bion, 1965). 


A dialógica é um movimento característico da complexidade, que ocorre na interação de disciplinas do pensamento humano (comecei hoje por exemplo com a dialógica entre psicanálise, literatura, Física relativista e Matemática). Dialógica significa estar aberto para escutar várias vozes sobre o mesmo assunto visando um pensar. Essa é a diretriz de minha apresentação de hoje. Ampliar a escuta se quiserem resumir.


O espaço é matéria informada pelo tempo, ou seja, a forma é percebida como expressão da ação do tempo sobre a matéria. A vida, como percepção das potências do tempo, é sinônima de transformações. As transformações constituem a vida do nascimento a morte, criando espaços que se revestem de múltiplos tempos que a acolhem. 


O acolhimento da vida desenha a possibilidade de compreensão de algo muito básico e fundamental: antes de tudo, a vida significa tempo. Entrando aqui na área da ética, podemos entender que se respeitando a vida, naturalmente se respeita a verdade do tempo, mas, a verdade do tempo é que não sabemos ainda o que é o tempo, que ainda estamos no caminho de saber, e que em nome deste respeito ao não saber teremos que questionar muitas coisas que são tomadas como verdade.


Por exemplo, temos o hábito de pensar que o tempo segue uma lógica linear_ a flecha do tempo (assimetria do tempo) _ na qual os acontecimentos se produzem na sequência antes e depois. Mas, não é somente isso. A Relatividade e a Física quântica mostram que tal afirmativa está no nível das crenças e as derrubaram, pois houve possibilidade de pensar na complexidade das simetrias. Por essa razão, certamente, um dia vai surgir algo que vai mostrar o simplismo das conclusões cientificas sobre o tempo, ou seja, a evolução cientifica tende a mostrar outras possibilidades, ou simultânea existência de múltiplos tempos. 


Voltar fisicamente no tempo é uma questão de simetria do tempo que foi levantada por Einstein, quando afirmou que seria preciso para isso acontecer ultrapassar a velocidade da luz, considerada então uma velocidade limite do universo. Se eu ultrapassar a velocidade da luz chego antes de sair.

Todavia, recentemente descobriu-se que uma partícula, o neutrino [4], ao penetrar com velocidade da luz numa molécula de água sofre uma aceleração, emitindo outro tipo de luz, e até agora ninguém sabe o que isso significa, a não ser a existência de outros tipos de luz com velocidades maiores do que a luz que conhecemos. Essas luzes estão existindo em outras possibilidades de tempo, sobre as quais nada sabemos até o momento. Essa é a descrição de uma transformação catastrófica: invariância, violência e subversão do sistema.


Transformações significa perceber a relatividade de tempos diferentes, de acordo com os acontecimentos, como, por exemplo, aceleração e consequente turbulência da matéria. 


Em psicanálise, observamos a mente percebendo o tempo de formas diferentes, de acordo com a turbulência causada pelas diferentes experiências emocionais. Percebe-se, por exemplo, um tempo linear, ou informativo, o mais comum descrito no dia a dia, o tempo do relógio, que corresponde ao grau mínimo de turbulência. Na medida que a turbulência aumenta percebe-se um tempo circular, descrito por Freud, onde o passado parece reaparecer com “fidelidade incômoda”. Se a partir daí aumenta-se mais ainda a turbulência, como ocorre nas relações primitivas descritas por Klein nos movimentos projetivos, aparece o tempo ondulatório que faz algo aparecer e desaparecer gerando um vazio. Finalmente, no limite do rompimento com a capacidade para pensar, por conta da turbulência ainda maior, pode aparecer uma confusão de tempos que acaba atendendo a algum imperativo moral. Bion (1965) chamou esse movimento de transformação em alucinose. Portanto, não se trata de atemporalidade, mas de confusão de tempos.


Mas seja qual for a experiência, a primeira de todas as vivencias humanas é sempre o tempo e a capacidade de tolerá-lo. Tolerando-se o tempo é possível tolerar perda e depressão, daí surge o que conhecemos como espaço, que abre as possibilidades de verbalização, e esta, por sua vez, abre caminho para a responsabilidade, o uso do senso comum, e a capacidade de avaliação de consequências das ações.


Quando o tempo não é tolerado, ou seja, quando não se consegue tolerar perda, luto  e depressão, aparece uma dor psíquica que se encaminha para um tipo de vivência de frustração tornando-se sinônima de privação, que gera ódio intenso às fontes dessa dor, localizadas no vínculo entre a realidade externa e interna, ou seja, na capacidade para pensar_ que sendo atacada pelo ódio, produz uma extrema vulnerabilidade e segue-se o terror de aniquilamento iminente, e as defesas contra ele, que estão sempre no âmbito da fragilidade dos vínculos.


A ilustração mais clara da relatividade e mutabilidade do tempo foi dada pelo que foi chamado de paradoxo dos gêmeos [5] - ainda que nada tenha de paradoxal. Se um dos gêmeos viaja a grande velocidade, afastando-se do outro, os dois terão idades diferentes quando se reencontram; ou seja, o que nunca mudou de velocidade será o mais velho.


Não se trata de um paradoxo, mas de uma consequência do modo como o universo está estruturado: o tempo não é um “continente” absoluto dentro do qual os objetos (conteúdos) evoluem, o tempo é próprio a cada objeto e depende do seu movimento. Experiências bem precisas feitas com relógios idênticos mostram que viajando em velocidades distintas exibem horas diferentes após a experiência.


Poincaré, antes de Einstein, verificou que medidas sucessivas temporais no espaço constituído pelas orbitas da Terra, Lua e Sol, não coincidiam, em virtude das alterações gravitacionais.


Einstein corroborou profundamente essa ideia com a teoria da relatividade geral, mostrando que um campo gravitacional forte faz com que os relógios funcionem mais lentamente.


Quando dois acontecimentos se desenrolam em lugares muito distantes, não faz sentido perguntar o que acontece entre eles no momento presente; por exemplo, o que acontece entre a Terra e a galáxia de Andrômeda (2,5 milhões de anos-luz). A razão é que o tempo não se escoa em toda parte da mesma maneira. Temos o nosso tempo, e a galáxia de Andrômeda tem o dela, assim os dois tempos não podem ser postos em relação. A menos que seja uma ficção. Em psicanálise precisamos nos acostumar com ficções como essas, não por conta do cálculo errado, mas por conta da busca de sentido que não se alimenta do cálculo.


A única coisa possível entre objetos muito distantes entre si como a Terra e Andrômeda, é se comunicar com sinais eletromagnéticos, apesar de eles viajarem 2,5 milhões de anos para cobrir essa distância. Os dois lugares estão física e temporalmente desconectados. Não podemos pensar no tempo como um relógio cósmico a ritmar a vida do universo. O tempo é uma condição local e assim cada objeto no universo possui o seu próprio tempo.


A forma complexa como se articulam os objetos não permite separação entre tempo e espaço, por isso falamos desde Einstein em espaço-tempo. Tudo seguia muito bem cientificamente com essa ideia até que uma novidade foi introduzida pelo pensamento quântico: a ideia de que o espaço não existe. Existe somente um campo gravitacional que é feito de nuvens de probabilidades de algo como grãos ligados em rede. Tudo interage infinitamente, e assim atingimos um desses limites da ciência, pois, se o espaço não existe, o tempo também não existe, o que nos coloca numa situação muito difícil, pois contraria como tudo com que aprendemos a perceber intuitivamente o mundo, ou seja, como sendo um contexto de três elementos indissociáveis, espaço, tempo e existência


O Pensamento Complexo (Morin) surgiu para nos mostrar que não devemos recuar diante de algo que parece impossível dentro dos referenciais existentes. Isso nos remete, sobretudo, a uma ética que podemos nomear como ética das perguntas essenciais, ou das perguntas que não se encerram com respostas. Podemos também dizer que se trata da ética das perguntas difíceis, as que nos levam sempre a novas respostas, ou a um aprofundamento, que nunca atinge a verdade. Sabemos que a verdade está nas profundezas, todavia, quanto mais nos aprofundamos mais ela se afasta ficando cada vez mais profunda. Essa é uma frase de Friedrich Schiller, o mesmo que escreveu o romance Guilherme Tell, e a letra da música famosa de Beethoven: Ode a alegria. Ou seja, já que não podemos atingir a verdade o que nos resta como seres humanos é criar, imaginar o que seria a verdade se tivéssemos acesso a ela, assim foram surgindo todas as criações, em todas as áreas que dizem respeito a mente humana.


As perguntas difíceis são todas relativas ao que entendemos como tempo, e que desde épocas imemoriais dividimos na tentativa de compreender o mundo como: passado, futuro e presente.


As perguntas são as seguintes:


Por que as coisas existem, ou seja, de onde eu vim? Passado

Como se compõe o mundo, ou seja, para onde vou? Futuro

O que somos nós no mundo, ou melhor, quem sou eu? Presente


Nossa incapacidade para responder a essas perguntas explica sempre a nossa relutância em enfrentá-las, o que por sua vez explica a nossa profunda desorientação, tantas vezes responsável pelas incontáveis explicações para lidar ou disfarçar as ansiedades que despertam. Por outro lado, são essas perguntas que constituem a prática psicanalítica, em cujo contexto são conhecidas como as três perguntas edípicas. As defesas contra essas perguntas são geralmente chamadas de resistências a psicanálise. Essa expressão sofreu uma modificação em Bion (1965) quando sugeriu falarmos de inacessibilidade a O, sendo O sinônimo de realidade psíquica compartilhada, e que resume os três tempos_ sem de fato ser um deles. O é simultaneamente Onthos (origem) e Opus (trabalho em andamento) _ um fenômeno do tempo, portanto, do “entre” as pessoas envolvidas. 


As perguntas com que lidamos na psicanálise são muito antigas, e ao mesmo tempo muito atuais, e serão as perguntas futuras, deste modo, temos aí uma inegável vivência de que o ontem e o hoje são relativos e simétricos quando retomamos essas perguntas. Não se trata, todavia, de algo simples, que pode ser resolvido por uma dialética. Trata-se de algo que é profundamente dialógico e inerente ao ser humano, aquilo que existe de mais íntimo e transformador, o elemento que definiu a existência do ser humano: a pré-concepção. Trata-se do elemento gerador da mente humana, e que constitui um conceito polemico, pois define-se como uma expectativa vaga de que no futuro existe uma mente capaz de conter as incompletudes e satisfazer as necessidades. Esse conceito é polêmico em relação a psicanálise clássica, pois inclui o tempo no inconsciente- o tempo futuro. O futuro é o inconsciente e dele temos memórias, sombras que chegam até nós, tantas vezes como poesia e ficção.


Além disso, as três perguntas não podem ficar isoladas de mais duas; somos livres? E como devemos viver? 


Essas perguntas geram a dimensão ética que complementa o problema que temos que enfrentar em psicanálise. Podemos tratar das cinco perguntas usando_ como fez Bion (1975) _ cinco relatos mítico-poiéticos:


1) Mito de Éden

2) Mito de Édipo

3) Mito de Babel

4) Morte de Palinurus (trecho da Eneida)

5) A descoberta arqueológica do cemitério de Ur. 


Mas, todos estamos abertos e em condições de formular o que nos parece mais instrumental para se aproximar da realidade psíquica. Podemos estar sempre tentando, usando desde o mito pessoal de cada um (as histórias individuais), ou outros mitos que nos parecem fazer mais sentido. Ou podemos traduzir com imagens oníricas, artísticas, imagens verbais em poesias e canções, mas, o que realmente importa é colocar em uma linguagem que possa nos dar a vivência da busca de sentido, ainda que muitas vezes passageira, de transcender o sofrimento psíquico. 


Freud acreditava nisso, como nos relataram alguns de seus analisandos. Muitos ansiavam por uma palavra de Freud, que nem sempre vinha [6], mas todos declararam que ao terem seu mito edípico descrito, Freud parecia acreditar que a mente provida desta linguagem de alcance psicanalítico (Chuster, 2025) abriria caminho naturalmente. Mas, sabemos com a evolução da psicanálise que não é bem assim. Sem o desenvolvimento simultâneo da capacidade para pensar nada ocorre, e isso envolve priorizar a análise dos elementos que atacam a capacidade para pensar, a saber, a parte psicótica da personalidade. Por essa razão, na psicanálise, antes de tudo, penso que podemos conseguir um significativo início da investigação dos problemas até aqui relacionados quando aplicamos a Teoria do Pensar de Bion (1962a). 


Embora chamada de Teoria, ela é muito mais um instrumento de pensamento do que um conhecimento que mereça ser chamado de teoria. Então, é uma teoria que se dispensa como teoria para reaver algo que nos é essencial ao trabalho: a intuição. Claro, que ao indicar uma determinada visão do Pensar, suas origens e adversidades, isso significa uma teoria. Todavia, rapidamente percebemos a universalidade que ela coloca, o que nos deixa numa situação de estar sempre buscando fazer mudanças de vértices, ou metaforicamente falando, sempre tentando entender a montanha dando voltas completas e mais precisas para captar todos seus lados e facetas. Como a montanha muda o tempo todo, ainda que de forma sutil, a Incerteza é permanente, e talvez as interpretações não passam de tentativas de aproximações, que sempre precisam ser refeitas. Que tal então substituir o termo interpretação por aproximação?


Sabemos que graças ao uso do mito de Édipo, a intuição de Freud descobriu um conceito que a iluminou de tal forma que mudou para sempre a história do ser humano: a psicanálise.


Mas o que é a psicanálise? 


Com essa questão tocamos num tema muito vasto. Por ser vasto, permanece indeterminado. Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e assim sempre atingiremos alguma coisa. Entretanto, pelo fato de que na abordagem deste tema tão amplo, existir entrecruzamento de todas as opiniões possíveis, corremos o risco de perder a devida atenção necessária a prática exercida. Com frequência isso acontece, quando vemos pessoas misturando psicanálise com termos religiosos, ou ideológicos, o que dá no mesmo, se considerarmos que ambas as atividades visam a iludir a imatura preconcepção_ que é a base da mente_ com promessas e crenças de paraíso, ou de um espaço onde tudo será atendido, um espaço sem o incômodo tempo. 


Por isso podemos imaginar que seria melhor tentar determinar mais exatamente a questão. Pode parecer que fazendo isso estamos indo para um caminho seguro, o que de novo nos coloca na situação ilusória, pois não há tal coisa como um caminho seguro. Devemos permanecer num estado mental em aberto, para que o caminho sobre o qual gostaríamos de focar a atenção seja considerado a indicação de um caminho de investigação, mas nunca achar que se trata de uma investigação que me permite responder. A frase: a resposta é o infortúnio da pergunta, aqui se aplica. Mais ainda se a resposta pretende explicar o que devemos fazer, pensar ou sentir.


O que acabei de assinalar significa que se supormos ser capazes de encontrar um caminho para responder mais exatamente a questão_ o que é psicanálise_ esse caminho levanta imediatamente uma objeção contra o tema do nosso encontro- o tempo. Esse é o resumo do problema: O que é a psicanálise?  Será que ao perguntar isso eu falo sobre psicanálise? Sim. Mas, se respondo não estou mais no contexto. Seria a psicanálise essa própria pergunta?  Ao fazer essa pergunta para Melanie Klein em sua última sessão de análise com ela, Bion escutou a seguinte resposta: em suas próprias palavras Dr. Bion, a psicanálise é uma preconcepção em busca de uma realização, um significado em busca de uma palavra que lhe dê sentido.


Essa colocação de Klein, pode ser chamada de uma hipótese definitória, e quando a fazemos parece que nos colocamos num ponto de saber acima da psicanálise, e isso quer dizer exatamente ficar fora dela. Porém estamos aqui numa sociedade psicanalítica para penetrar na psicanálise, viver o que ela possibilita, submeter nosso pensar as suas transformações e diretrizes, ou seja, pensar na direção do que é o ato de psicanalisar, uma prática inédita na história. E se é inédita certamente não posso responder usando o que não seja inédito.


O caminho de nosso diálogo deve ter por isso não apenas uma direção bem clara, mas essa discussão deve, ao mesmo tempo, oferecer-nos também a garantia de que nos movemos no âmbito da psicanálise. E não fora e em torno dela. O caminho de nossa discussão deve ser, portanto, de tal tipo e direção que aquilo de que a psicanálise trata atinja nossa responsabilidade, atinja justamente no nosso ser e fale a partir da nossa sensibilidade e por meio dela.


Quando digo isso – ou seja, em apelo a sensibilidade_ será que estou transformando a psicanálise num objeto que diz respeito apenas ao nosso mundo afetivo e sentimental? A psicanálise é somente a experiencia emocional do processo de psicanalisar?


O escritor André Gide disse certa vez que C`est avec les beaus sentiments que l`on fait la Mauvaise literature (com os mais belos sentimentos fazemos a péssima literatura). Essa frase é válida não apenas para a literatura, mas vale para a filosofia e desta vamos indagar sua validade na psicanálise. Pois os mais belos sentimentos não pertencem a uma disciplina especifica, fogem a soberania da Razão. Felizmente, o filosofo David Hume disse que a razão é escrava das emoções, tirando com a frase a possibilidade que exista um domínio só da razão e outro só da emoção. Assim, fica mais evidente de que podemos nos instalar numa prática que junte os dois termos como o domínio do Pensar, ou a única atividade que concerne a ambos os aspectos da vida humana. Aqui encontramos mais uma vez com Bion, quando ele estabelece como pilar da psicanálise, uma Teoria do Pensar


Vejamos como tudo se encaixa com muito cuidado, num caminho muito bem orientado, para não vagarmos através de representações arbitrarias e ocasionais a respeito da psicanálise. O caminho para o qual desejaria apontar está imediatamente diante de nós. E precisamente por estar muito próximo vamos achá-lo difícil. 


Perguntando_ o que é a psicanálise_ sabemos apenas que pronunciamos incontáveis vezes a palavra psicanálise. Geralmente pode surgir daí um problema, pois palavras muito usadas podem parecer um termo gasto. Mas, se a escutarmos como a primeira vez, como aquela primeira vez que Freud a pronunciou, e quem em seguida escutou sobre o que ele pretendia trazer ao mundo, pode ter tido a sensação de que se falava de algo presente desde os primórdios da espécie humana, um caminho sobre o qual estamos a caminho, mas, não conhecemos muito sobre ele, por mais conhecimentos históricos sobre a psicanálise que foram difundidos.


A Teoria do Pensar nos informa que a psicanálise é uma resposta prática para questões filosóficas (ou seja, questões da vida). Questões que os filósofos sabem colocar muito bem, mas não sabem o que fazer além de generalizá-las, quando precisamos de que sejam individualizadas e sintonizadas com o inconsciente de cada indivíduo. Precisamos que as respostas resgatem o ser do individuo.


No entanto, não é tão simples assim, a filosofia não é antecessora da psicanálise, talvez o teatro grego o seja muito mais. Porém, o teatro nada descobriu, somente nos acordou quando descreveu que era melhor falar do destino dos homens do que ficar envolvido com a história dos deuses que nunca respondem nada. Sobre os homens podemos perguntar.


Assim, essa relação que podemos chamar de complexa entre filosofia e psicanálise, exige que situemos e especifiquemos o campo da prática, e Bion o faz dizendo que existe uma condicionalidade que é a mesma que existe entre a matemática pura e a matemática aplicada. Ou seja, como instrumento de pensar, a matemática oferece fundamentos para a busca da verdade, ou seja, fornece metafisica e princípios epistemológicos que afastem o campo psicanalítico de crenças e hábitos vazios.  


Destaco entre esses princípios, o princípio da Incerteza, e todas as implicações na mudança de paradigma que pode introduzir no pensamento psicanalítico.


A Incerteza nos mostra os limites e limitações de nosso campo, apontando para o fato de que é impossível observar o todo de uma experiência, bem como estabelecendo que o observador altera o fato observado, fazendo de toda interpretação um movimento incompleto e modesto de tentativa de aproximação a uma realidade psíquica.


A Teoria do Pensar tem também a vantagem de situar a história do desenvolvimento mental privilegiando um conceito_ a preconcepção _ que nos informa que dentro do ser humano existe essa possibilidade intuitiva de sentir a relação entre tempo e espaço, como função que dá continente a nossa existência.


A preconcepção é uma ideia que, sobretudo, contempla a evolução do ser humano como um ser neotênico, ou seja, que carrega a vida toda uma imaturidade em busca de evolução. Essa imaturidade teve como resultado o nascimento de uma espécie cujos bebês nascendo totalmente imaturos, tiveram uma diminuição quase absoluta dos fatores inatos, o que abriu espaço para aprender com a experiência. Ao contrário das demais espécies, que nascem sabendo tudo que precisam para sobreviver, o ser humano precisa aprender tudo, e permanece assim ao longo de sua vida. Além disso, ao contrário das demais espécies que conseguiram colocar o aprendizado no DNA, a espécie humana coloca na misteriosa mente em expansão constante. O que restou de inato no ser humano foi a informação essencial para o bebê que é buscar uma mente para poder atendê-lo e suprir suas necessidades e incompletudes.


Esse fato gerou uma complexidade sem precedentes, pois foi necessário para a sobrevivência da espécie desenvolver um método de transmissão de conhecimentos emocionais, simultaneamente com um processo de alimentação de cuidados básicos para proteger a vida. Esse método necessitou reproduzir um elemento que foi essencial a criação da vida na face da Terra, ou seja, o looping autopoiético, que consegue envolver e fazer interagir diversos níveis no espaço e no tempo. Criou-se então uma cadeia associativa que junta a mente do bebê com a mente da mãe, que por sua vez carrega a mente de sua mãe, que carrega a mente de incontáveis gerações de mães. Além disso, a mente da mãe se conecta a mente do pai e tudo que essa mente traz, acrescentando a mente do casal, da família, da cultura, da sociedade e finalmente do processo que foi chamado de inconsciente coletivo, que seria onde está sendo formada a mente criativa capaz de dar soluções novas para que a cadeia associativa evolua. Esse processo chamado por Bion de reverie, certamente é muito complexo e necessita por razoes epistemológicas ser traduzido para o termo função alfa.


Rio de Janeiro, 13/03/2026.


Notes


1 Membro Efetivo e Didata da SPRJ.


2 Morin, E. Introdução ao Pensamento Complexo, Sulina, 2015.


3 Einstein, A. Teoria da Relatividade Especial e Geral, LP&M, 2015.


4 neutrino é uma partícula subatômica sem carga elétrica e que interage com outras partículas apenas por meio da gravidade e da força nuclear fraca (duas das quatro forças fundamentais da Natureza, ao lado da eletromagnética e da força nuclear forte). É conhecido por suas características extremas: é extremamente leve (algumas centenas de vezes mais leve que o elétron existe com enorme abundância (é a segunda partícula mais abundante do Universo conhecido, depois do fóton) e interage com a matéria de forma extremamente débil (cerca de 65 bilhões de neutrinos atravessam cada centímetro quadrado da superfície da Terra voltada para o Sol a cada segundo).


5 Rovelli, C. A ordem do Tempo. Objetiva. 2018.


6 Parece que Freud falava mais a vontade com os analisandos de língua alemãs. Os de língua inglesa se queixavam que muitas vezes ele nada dizia e que parecia até estar dormindo (Rickman e Strachey).












 
 
 

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