Curso sobre a Cesura (2025) Gramado – Febrapsi
- 4 de jun.
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Curso sobre a Cesura que ocorreu nos dias 23, 24 e 25 de outubro de 2025 em Gramado – Rio Grande do Sul
Febrapsi
1. Origens do termo Cesura. O conceito nascendo na obra de Bion
Latência dos conceitos, o umbigo do sonho, o nascedouro dos pensamentos. Os conceitos são metáforas, atravessados por cesuras — como a cesura entre a obra de Klein e Bion. A pausa é o silêncio penetrante, antes de nascer o mundo, antes de nascer um pensamento.
Ao amanhecer, podemos observar a cesura entre o pensamento onírico da noite e o pensamento onírico da vigília. É o instante em que não conseguimos diferenciar os dois mundos em que vivemos. Criação: o momento em que o pensamento nasce.
A poética é o sonho da linguagem, linguagem metafórica que é, justamente, a linguagem de alcance psicanalítico. Arnaldo Chuster coloca em evidência o modelo espectral: a vida acontece nesse movimento entre duas setas, transiência e movimento constante. O modelo espectral kantiano, o entrelaçamento entre intuição e conceito.
O gêmeo imaginário — um pensamento ainda não nascido — aterroriza. Terror sem nome. Aqui se insinua a censura, a resistência à transformação em “O”, a perda do movimento, a mente paralisada. A rêverie se compreende como pensamento imaginativo que nasce entre cesuras.
O analista habita o espaço de constantes cesuras na sessão — comunicação entre dois mundos, finito e infinito. Há uma falha em tudo: é assim que o sonho nasce. A dúvida e a pergunta ampliam o espectro das possibilidades. A resposta, ao contrário, satura.
Tolerar a dúvida é ampliar o campo analítico, multiplicando perguntas. Pensar é elucidar, lançar luz, transformar a intuição em conceito. Esse é o trabalho do pensar: sustentar os mistérios, as dúvidas, as incertezas.
A cesura é uma entidade imaginária, infinitamente plástica. A obra de Bion é um sistema aberto: movimenta-se por cesuras.
Até a cesura de amanhã — ou do amanhã. A cesura como experiência encarnada, possível de ser transferida. A experiência emocional da cesura: um movimento de ir e vir.
2. Entre a cesura de ontem e hoje, a suave cesura entre Arnaldo e Renato.
Há uma cesura entre as gerações, continuidade e ruptura. O pensamento voa quando começamos a pensar — o pensar é uma cesura. Os pensamentos são acumulações do pensar.
Paciência é estar em capacidade negativa, um polo aberto à corrente do pensamento, ao inesperado. A linguagem de alcance psicanalítico atravessa cesuras.
Negativo e positivo são ausências e presenças: uma ausência de onde emergem pensamentos, via cesuras. O modelo ético é um modelo espectral. Como no negativo da fotografia analógica, qualquer imagem pode emergir.
Um vértice moral talvez tenha induzido a tradução de cesura por censura. Publica-ação do pensamento: encontro com o inesperado e com a paciência. Pensar é uma transição de espaços. Pensar é uma festa (Nietzsche), celebração de algo novo. Mesmo na repetição, algo novo emerge.
Transferência como cesura, como transitoriedade: sempre algo novo. Durante uma sessão, existem nascimentos — bebês ainda não nascidos, ideias que surgem no intervalo. Cesuras em diferentes temporalidades, indefinibilidade da origem.
A pré-concepção é a busca da mente: o bebê busca a mente da mãe. O tempo é a cesura — tempo, espaço e existência. O começo é indecidível. A cesura complexifica a ideia de transferência.
O modelo espectral trabalha com paradoxos: ruptura e continuidade. Bion era um sertanejo — sertão da Índia — o sertanejo que vê o infinito inconsciente. Fenômenos de criação, linguagem de alcance psicanalítico: a psicanálise como cesura na humanidade.
Relação comensal entre Renato e Arnaldo: criação de um filho-texto-fala. Matemática poética, aritmética das relações. Dois elementos se juntam e formam um terceiro.
A mentira e a inveja espoliativa levam ao zero: eliminam o Ser. A ideia do 1 + 1 = 0. A expansão metastática da inveja se sustenta na ideia de imortalidade.
3 - O umbigo epistemológico: o nascedouro dos conceitos. (MR)
A
Ideias e teorias podem se transformar em crenças, e assim temos a censura, o -K, e não a cesura, a passagem, a transitoriedade. O “O” é um ponto de indecidibilidade, um instante em que não é possível distinguir entre dimensões distintas: eu e outro, inconsciente e consciente, infinito e finito.
Qual é a ética da psicanálise? A ética é uma construção contínua do sujeito, uma responsabilidade psíquica pela direção que se toma. Uma ética complexa, na qual predomina a parte não psicótica da personalidade.
O modelo espectral, com suas cesuras e simetrias, constitui uma das bases da ética da psicanálise.
A cesura é a zona central do espectro; os extremos, nos polos, marcam o limite do humano (MR).
A intuição psicanaliticamente treinada — ou função psicanalítica da personalidade — é expandida pela análise, tanto no analisando quanto no analista. A mente é multidimensional, coexistem nela diferentes temporalidades e dimensões. Há um constante estar sendo analista. O gerúndio — sendo — é abertura e movimento; a identidade, quando fixa, interrompe o fluxo. Tornar-se analista é um processo contínuo, uma transiência no ser.
O analista não deveria ingressar na sociedade das palavras mortas, onde o movimento se perde e se instala a censura e a moralidade. A palavra precisa manter-se pulsante, viva.
Cesura foi escrito após Memória do futuro; talvez a experiência da escrita desse texto dialógico tenha favorecido a emergência do conceito (MR).
P.A. — a cesura entre analista e analisando, a dupla seta no espectro.
O uno analista-analisando representado pelo personagem P.A. (MR).
Conversas impossíveis são conversas dialógicas coexistentes, não conclusivas — a possibilidade de escutar várias vozes ao mesmo tempo, percorrendo direções diferentes.A aventura da psicanálise é uma atividade aproximativa e contínua.
A cesura é constitutiva da própria mente: não há mente sem o trânsito entre mundos distintos — consciente e inconsciente, finito e infinito. Essa transiência sustenta a capacidade de pensar.
Assim, a cesura pode ser pensada como o umbigo do pensamento, o nascedouro da experiência psíquica (MR).



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