Discurso político e psicanálise
- 5 de jun.
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Por Arnaldo Chuster [1]
Existe um tema perene no pensamento de todas as culturas: a busca de definições.
Os diálogos socráticos, escritos no século V a.C., já questionam essa necessidade com uma profundidade talvez insuperável. O que é justiça? O que é conhecimento? O que é beleza?
Como tudo que diz respeito a estas questões ocorre dentro da Polis, elas naturalmente levam à indagação: o que é política?
Os temas interagem como peças de um caleidoscópio, e por isso mesmo, através de uma série de perguntas e respostas, os diálogos ilustram um fato extremamente significativo: os interlocutores, apesar de seu notório conhecimento, não têm na verdade, uma compreensão clara dos conceitos.
Existe aqui um paradoxo, pois aqueles que supostamente poderiam fornecer uma definição, na realidade são capazes de dizer o que não é, e embora isso implique que de algum modo deveriam saber o que é, não conseguem fornecer uma definição.
Isso nos traz perplexidade e nos coloca diante de uma inevitável reflexão: não seria melhor admitir que tudo é e não é, ou seja, simplesmente admitir o paradoxo, e ficar nesse ponto.Todavia, essa admissão nos coloca diante de dificuldades sérias, pois retira-se as condições necessárias e suficientes para que haja evolução.
Em geral, os temas das discussões revelam discursos diferentes, e daí surge a acusação de que a política do outro não deveria ser chamada de política. Uma acusação narcísica que logo leva às intrigas e às práticas perversas de criar adversários para servir de bode expiatório.
Assim, saindo da perplexidade vamos para o mal-estar, sugerindo pensar se a tarefa de encontrar uma definição não é a busca de apreender algo impossível.
Teria sido isso que levou Freud a considerar_ por duas vezes_ que existem três profissões impossíveis: governar, educar e psicanalisar?
Nunca encontrei nada escrito sobre alguém que teria perguntado a Freud o que ele então fazia já que era impossível.
Também não me parece lógico comparar as três atividades, já que duas delas partem da formulação de um ponto de chegada, fornecido pelo programa de promessas, a que se chama de política de governo, ou programa educacional com suas metas, que chama de política educacional.
A psicanálise não possui nem nunca possuiu a formulação de um ponto de chegada. Quando começamos uma análise não sabemos até onde podemos ir, não existe nenhum programa a ser seguido, embora às vezes os pacientes nos solicitem essas avaliações pela ansiedade diante do desconhecido que se expande.
Até aqui ao colocar essas questões parece que faço a descrição de um labirinto, mas, sugiro que se adotarmos o pensamento complexo, veremos que o labirinto é o fato mais significativo e necessário, com a ressalva de que a metáfora é de um labirinto em que o difícil é a entrada e não a saída. Pois, para entrar dependemos da imaginação criativa seguindo uma ética de busca da verdade.
Freud fez outra declaração política com relação a psicanálise quando chegou nos Estados Unidos em 1910, ao dizer diante da efusiva recepção de ingênuos anfitriões, que não sabiam que lhes estava sendo levada a peste. Em que consiste essa afirmação?
Penso, que se trata de colocar para a psicanálise a busca do diálogo verdadeiro, elucidando as origens inconscientes de todas representações, e isso exatamente se opõe ao que se chama de discurso político ou do exercício da política, que nunca é a busca da verdade, mas, no dizer de Lacan, o ocultamento da verdade. E para ocultar a melhor forma é sempre a mentira, o pensamento que calcula produzir ideias para influenciar e convencer o outro de uma “verdade”. Não importa certamente para o mentiroso a destruição que promove em si e nos outros.
Wittgenstein em sua obra “Investigações Filosóficas”, tentou uma saída do labirinto das definições usando a palavra jogo. Todos nós temos desde criança uma ideia do que são jogos, podemos dar muitos exemplos. Mas, quando tentamos ir mais fundo e procurar algum significado essencial, ou definição que inclua todos os jogos, não encontramos um denominador comum, não existe uma característica que todos compartilhem.
Em resumo, não se atinge uma profundidade oculta ou um significado essencial; nossa compreensão da palavra é nem mais nem menos, nossa capacidade de usá-la de modo adequado num amplo leque de contextos.
Podemos ver uma rede complicada de semelhanças que se sobrepõem e se entrecruzam: às vezes semelhanças gerais, às vezes semelhanças nos detalhes. O problema principal, em função disso, está sempre nas falsas equivalências que são tentativas de mostrar uma superioridade moral de compreensão.
Curiosamente, o mesmo problema foi relatado na matemática por Kurt Gödel quando estudou os diversos setores buscando axiomas comuns e não os encontrou, o que o levou a formular que a matemática não é uma ciência exata, mas sim probabilística, e que nos deixa no final das contas diante do contato com um profundo mistério a ser desvendado no futuro (se esse fato for tolerado).
O mesmo ocorre com o discurso político. As políticas podem ter muitas coisas em comum, mas, somente a psicanálise mostra com muita clareza, o que é a única coisa em comum entre elas, ou seja, a configuração edípica que lhe dá origem. Trata-se da inescapável organização psíquica tridimensional, que se constitui até hoje na pedra angular da psicanálise.
São questões edípicas que movem as diferentes escolhas políticas, mas, antes de descrevê-las, é importante destacar que todos os personagens se constituem e escolhem em função dos seus sentimentos prevalentes.
O filósofo que formulou como nenhum outro o que constitui essa experiência humana, David Hume, afirmou que a razão é escrava das emoções.
As emoções surgidas nos conflitos mais precoces constituem a base de todo e qualquer discurso, não apenas político, mas de tudo que se expressa por pensamentos e palavras.
Portanto, por essa razão das mais antigas às mais atuais discussões e discursos políticos envolvem o confronto entre Fé e Razão.
Por exemplo, Abraão, na Bíblia, uma das histórias mais antigas é o exemplo arquetípico e paradigmático da Fé religiosa e da fanática disposição inabalável de observar os mandamentos de Deus, chegando ao ponto de aceitar sacrificar o próprio filho Isaac. O mesmo pode ocorrer com seguidores de líderes políticos.
Tirado do contexto religioso e analisado à luz da psicanálise, temos o conflito edípico clássico com a tentativa de filicídio. Talvez, não se possa separar filicídio de parricídio, uma vez que ao tentar matar o filho, estava também tentando matar seu próprio pai para extinguir com sua prole. O comportamento de Abraão, fora do contexto religioso, parece insano, e mostra um dos paradigmas de toda psicose: o ataque cruel aos vínculos familiares, a vigorosa confusão de valores que cria uma vulnerabilidade que se traduz em propensão ao crime e ao ataque social.
Talvez, nesse ponto, possamos destacar que onde a política se transforma em crença, e transforma-se em questão de fé cega, surge a arrogância de quem tem certeza de possuir a verdade, e assim possuir um caminho superior a quem não o segue.
O poeta Coleridge disse:
“aquele que começa a amar a religião mais que a verdade, irá logo amar a própria seita ou seu templo mais que a religião, e terminará por amar a si próprio mais que tudo”.Quando a razão é movida cegueira do narcisismo, onde apenas o próprio indivíduo conta, e fica acima de tudo aquilo que postulou pelos demais, o sentido social desaparece por completo e surge a tirania.
Se tomarmos outro mito bíblico, o mito de Éden, encontramos um primeiro discurso político que coloca em questão a liberdade de conhecimento. O governante do Éden atende aos súditos desde que não saiam da alienação. Se desafiam e adquirem conhecimento descobrem, pelo menos, que o governante só não é chamado de burro porque as pessoas fazem de conta que ele não está nu. Mas as pessoas se sentem nuas, se sentem envergonhadas de terem confiado na fé cega.
O escritor Milan Kundera relata no livro do Riso e do Esquecimento que aprendeu algo extremamente valioso durante o tempo do terror stalinista em seu país. Ele conta que aprendeu a reconhecer quem não era stalinista, ou uma pessoa em quem podia confiar ou que não precisava temer, pelo modo como ela sorria. O sorriso sincero e o humor não sarcástico, não irônico, não triunfante da piadinha sem graça, era um sinal de reconhecimento do outro como ser humano confiável.
Neste livro ele imaginou para ilustrar o totalitarismo uma pequena parábola sobre o riso dos anjos e o riso dos demônios. O demônio ri porque o mundo de Deus lhe parece sem sentido; os anjos sorriem de jubilo porque no mundo de Deus tudo tem sentido. Trata-se de uma descrição simétrica, que é muito bem ilustrada pelo quadro anjos e demônios de Esch. Quando se olha para a parte branca do quadro vemos o desenho do anjo, e quando se olha a parte escura vemos o demônio. Eles estão perfeitamente encaixados e se multiplicam dessa forma ao infinito.
Uma expressão física pode exprimir um espectro de possibilidades de representações, no mínimo temos duas atitudes metafísicas diferentes, duas lógicas distintas, não redutíveis uma à outra, com um ponto em comum onde não se pode definir nada. Ambas denotam prazer, mas nos extremos polares de distribuição do espectro temos dois abismos onde o ser humano desaparece: o fanatismo e o ceticismo absoluto se complementando.
Todas as possibilidades deste espectro observável podem ser chamadas, de acordo com Bion (1962b) de objeto psicanalítico. O espectro de objetos tem em uma de suas polaridades o –Y ou narcisismo, e de outro o +Y ou social-ismo. A letra Y pelo som denota a palavra em inglês Why (Por que)? Bion coloca desta forma para conotar que narcisismo, significa menos questionamentos; e social-ismo, mais questionamentos.
Provavelmente Bion separou a palavra para que não fosse confundida com a ideologia socialista. Sugiro que termo social-ismo pode ser substituído e desfazer de vez a possível interpretação equivocada pela expressão autonomia social.
Por autonomia social podemos representar a capacidade de um indivíduo conseguir ser ele mesmo, apesar das pressões grupais para que não pense e tenha ideias próprias.
A origem de todo objeto psicanalítico está na pré-concepção que busca uma realização que a transforme em concepções (pensamentos com os quais o indivíduo se relaciona consigo mesmo); estes, quando submetidos ao senso comum grupal, se transformam em conceitos (ou pensamentos que permitem o relacionamento com os outros).
Nesse processo interferem duas forças poderosas. Uma delas é a complexidade de um sistema aberto, como é o sistema mental. A complexidade é assinalada por Bion como fator µ (mistério) que introduz a relação entre o acaso e a escolha, ou entre a criação pré-natal e pós-natal.
A outra força é o fato da pré-concepção representar a neotenia humana, ou seja, a imaturidade inata (incompletude) dos objetos edípicos; sendo a pré-concepção, portanto, sempre uma pré-concepção edípica.
Nessa interação complexa de forças onde ocorre a passagem das concepções para os conceitos, ou seja, a entrada do indivíduo na cultura grupal, podemos ilustrar os discursos diversos pelos personagens do mito de Édipo. Assim, como aplicável a qualquer outra situação clínica ou qualquer discurso, os personagens do mito edípico podem caracterizam os diversos discursos políticos.
Por exemplo, o Oráculo faz propaganda política usando o slogan “conheça-te a ti mesmo”. O slogan está incompleto, pois a proposta completa vem da poesia onde se diz também “ e conhecerás o mundo e as estrelas”. Por essa razão, Édipo, diante de suas dificuldades para saber quem ele era, “votou (apostou) ” no Oráculo. Todavia, uma vez tendo acreditado na promessa, foi insultado e expulso de lá aos gritos acusatórios de miserável, parricida e incestuoso. O Oráculo contou uma meia verdade, ou seja, uma boa mentira. Se contasse toda a verdade esclareceria para Édipo sobre sua adoção, o que não traria toda a continuidade trágica. Mas, compartilhar o conhecimento (democracia) seria abrir mão da arrogância.
Os campos de concentração também em seu portal de entrada faziam a promessa, ali estava escrito; o trabalho liberta. Slogan político também incompleto, pois não esclarece que você ali trabalha até morrer e então está livre pela morte. Mais uma vez a meia-verdade, ou a boa mentira caracterizando de forma gritante a política do holocausto.
Tirésias é outro personagem que pode ilustrar essa passagem das concepções para os conceitos, caracterizando um discurso político. Ele é o sábio que pode compartilhar sua sabedoria, mas, ao contrário, tenta dissuadir Édipo de buscar a verdade. Seu discurso, por conta do seu histórico de bissexualidade, caracteriza a ambiguidade e a proposta de alienação como promotora da ausência de problemas sociais.
Todos os personagens do mito edípico podem ilustrar a essência da natureza humana, podem nos comover, assustar ou chocar, nos levar a concordar ou discordar, mas nunca permitem limitar qualquer termo como sendo a verdade. Qualquer tentativa nesse sentido é um erro e está destinada ao fracasso. Deste modo temos 10 tipos de discurso político, levando em conta que o mito de Édipo tem de acordo com Bion duas versões, a versão alfa e a versão beta. São 5 versões alfa e 5 betas nos termos 1) oracular, 2) Tirésias, 3) encruzilhada,4) esfinge,5) Édipo.
Outro fator na complexidade desse sistema está no fato que a imaturidade humana se expressa desde sua origem (pré-concepção) por uma expectativa vaga de que no futuro existe um objeto onipotente capaz de satisfazer todas as necessidades e incompletudes.
É em função desta imaturidade que se constitui o sucesso das religiões e ideologias ao prometerem a ilusão de que existe este objeto capaz de satisfazer tudo. Ou seja, tanto as religiões como as políticas podem prometer o objeto supremo que é um dos sonhos mais antigos do ser humano movido pelo princípio do prazer.
É o sonho com um mundo onde todos vivem em harmonia, unidos por uma vontade única e uma única fé ou crença, um mundo onde ninguém tem segredos, ninguém discute. Trata-se do mundo dos fanáticos (lembrando que a etimologia da palavra vem do grego fanum que quer dizer templo), isso naturalmente se refere também aos que não estão dentro do templo, ou seja, os profanos.
Se o fanatismo/totalitarismo não explorasse esses aspectos mais profundos da mente jamais conseguiria atrair tanta gente.
A experiência civilizatória, a História em geral, mostra que o sonho do paraíso ao entrar em contato com a realidade, acompanha-se de frustração, e começam a surgir pessoas que se transformam em obstáculos, opositores da ilusão, que a denunciam, e por isso os governantes do paraíso são obrigados a criar um inferno ao lado do paraíso para colocar essas pessoas.
Assim, foram criados os guetos, as prisões inquisitoriais, os campos de concentração, os gulags, os campos de reabilitação ideológica, etc.
Com o passar do tempo o inferno vai ficando cada vez mais populoso, maior e mais perfeito, enquanto o paraíso vai ficando menor e mais pobre.
Isso ocorre porque o Mal já estava presente na suposta beleza do paraíso, e se quisermos compreender a essência do inferno é necessário examinar a essência do paraíso em que tem origem.
Hoje em dia, diante das evidências do que o ser humano é capaz de fazer para criar um inferno para aqueles que discordam, deveria ser fácil condenar campos de concentração, no entanto, rejeitar o discurso totalitarista e sua promessa de paraíso social continua sendo tão difícil como sempre foi. As pessoas continuam se deixando hipnotizar pela poesia totalitária.
Chegamos aqui ao nó górdio da questão política. Uma sociedade autônoma não pode ser instaurada senão pela atividade autônoma da coletividade. Uma tal atividade pressupõe que as pessoas invistam fortemente em outra coisa além da possibilidade de comprar um novo aparelho de televisão, tomar cerveja e comer picanha, ou ganhar subsídios do Estado para se alienar, enfim, ir atrás das propostas demagógicas e simplistas. Mais profundamente, pressupõe que a paixão pela democracia seja a mesma pela liberdade e pelos negócios comuns, de respeito pela livre iniciativa, e que o conjunto de possibilidades possa tomar o lugar da distração com o celular, do cinismo vulgar dos que defendem o sistema em causa econômica própria, do conformismo do nada vai mudar, da corrida para o consumo. Em resumo: ela pressupõe, entre outras coisas, abandonar as ilusões e substituí-las pela ética.
Será tão difícil isso? Para mim, seguramente não. Prefiro ter meus amigos do que comprar qualquer coisa. Preferência subjetiva, certamente, mas meus amigos não fazem intriga, sorriem quando tenho algum sucesso e o mesmo faço quando é com eles. Nas situações difíceis me solidarizei com eles, e se podia abrir mão de comprar um celular novo para ajudar, não tive dúvida em fazer.
Minha família veio da Europa no início do século passado. Não saíram de lá sorrindo, pois viviam perseguições antissemitas. O antissemitismo não estava ausente aqui, mas era de uma qualidade diferente, era mais o produto da ignorância de quem nunca tinha convivido com um judeu. Quando conviviam e percebiam que não havia nada diferente, podem ter se espantado com a não diferença. Mas o país evoluiu em função disso como um contexto de amigos. Hoje, se instalou um governo que vai na direção oposta, trouxe de volta, entre tantas coisas falidas, tantos valores falsos, o antissemitismo, e mais, trouxe de volta a mais ignominiosa de suas características que é a negação do holocausto. Não me admira por tudo que disse hoje que a cegueira ideológica edípica faça muitos concordarem com isso. Mas, estou aqui para denunciar isso e estou pronto para ir embora, como muitos de meus antepassados um dia tiveram que ir pela mesma razão.
Notas
1 Membro Efetivo e Didata da SPRJ e do Newport Institute of Psychoanalysis, Califórnia. Membro Honorário do Instituto W. Bion, Porto Alegre, Award Bion, 2025 New York.



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