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Ousarei perturbar o universo? O sorriso de Bion - Um tributo a James Grotstein

  • 4 de jun.
  • 22 min de leitura

Artigo para a XVI Jornada Bion, por Arnaldo Chuster [1]


Num dos intervalos do encontro bianual EBOR em Seattle, 2011, caminhando por uma alameda da Northwestern University, local do evento, tive uma de muitas conversas profundas com esse ser humano extraordinário que foi James Grotstein. Nessa conversa, ele como sempre muito bem-humorado e gentil, me relatou uma sessão com Bion que lhe foi profundamente marcante.


O tema da conversa, que lhe suscitou a lembrança dessa sessão, era sobre os significados da proposta técnica de Bion enfatizando usar o inconsciente para chegar ao consciente, e não o contrário, como habitualmente se propõe na psicanálise. Grotstein destacou tratar-se de uma mudança profunda na técnica, pois, o uso da intuição e da imaginação ganham um papel decisivo na qualidade da interpretação, e no resultado que essa produz na vida mental do analisando.


Essa transformação da técnica é semelhante ao que ocorre no aparecimento dentro do artista de uma obra de arte até sua concretização, ou da mudança de vértice semelhante a que existe entre o sonhador que incarna o sonho, e o sonhador que conta o sonho em vigília. No resultado final será a habilidade do artista ou do narrador do sonho que se reflete na quantidade e qualidade dos significados transmitidos. 


As mesmas questões ocorrem com o analista, quando realiza mudanças de vértice para corresponder a mudanças percebidas em uma sessão, até efetuar as transformações manifestas em associações e interpretações.


Acrescento que para a intuição/imaginação encontrar o seu tempo e lugar é preciso que o analista supere a relação de dependência grupal com o casal memória e desejo. Memória é feminina, desejo é masculino. A memória procura um desejo que a penetre e o desejo procura uma memória para penetrar. Os dois juntos no leito sensorial, produzem um terceiro, a necessidade de compreensão, que passa a decidir sobre tudo que ocorre, mudando a direção da análise para graus diversos de distorção das observações. 


Em outras palavras, esse terceiro, ou seja, um bebê edípico produto do casal memória e desejo, produz interpretações (transformações) que distorcem as observações feitas. É preciso então que funcione outro casal, continente e conteúdo, o mais livre possível dos desejos edípicos que constituem os pontos cegos do analista, para criar o vértice de uma linguagem de alcance psicanalítico (Chuster,2023).


O modernismo (T.S.Elliot) da expressão sem memória e sem desejo, pode ser substituído, como fez Bion (1970), pela expressão proveniente do romantismo inglês, capacidade negativa (Keats), pela qual se alcança paciência e desprendimento da necessidade de significados, ao enfrentar mistérios, incertezas e dúvidas, ou podemos também substituir pelo futurismo da expressão de Nietzsche, ato de fé, que seria a força de vontade para colocar em jogo a capacidade de criar algo ao buscar a verdade.


A característica fundamental da linguagem de alcance psicanalítico (Chuster, 2023), a exemplo da poética, é romper com o vértice da linguagem cotidiana e se constituir numa fonte de inovação semântica (Bion, 1970; Chuster, 2023). Ela institui um novo vértice que é o da coisa-em-si, o vértice transcendente amoroso da poiesis, um preludio para ação, ou palavras que incitam o analisando a compreender a si mesmo. A compreensão é parte do ato em si mesmo, porém, o ato fundamental é ajudar o analisando a “tornar-se” ele mesmo, ou ser capaz de habitar o mundo com suas possibilidades.


Certamente que o vértice dos conflitos pulsionais que atrapalham o desenvolvimento psíquico, continua presente no trabalho analítico_ como possibilidade – entre outras, como também a questão das ansiedades produzidas pela concretude da realidade psíquica. Mas a ênfase do trabalho analítico em Bion não está mais nos conflitos pulsionais e nas relações objetais. A ênfase é colocada nas funções psíquicas, e na investigação do tipo de turbulência/transformações que elas causam. Trata-se de uma ética trágica se expressando nos vértices das falhas ou nos sucessos dos valores estéticos e éticos que regulam a qualidade de vida psíquica. 


Em termos mítico-oníricos-estéticos, trágico é a ética que mostra a identidade entre Deus e Satã. Trata-se, como na Antiga Grécia, da ideia de que todo Deus tem um lado satânico. Na sua busca de se unir a Deus [2] (Bion, 1970), at-one-ment, o indivíduo tentando ser ele mesmo, inevitavelmente entra em contato com sua fonte de angústia, seus conflitos mais profundos, pois percebe que os deuses morreram, e o homem é abandonado nas proximidades da depressão, do espaço vazio, cuja única saída é criar por si mesmo seu universo de vida. 


Em outras palavras, todas as funções psíquicas sempre falham em algum grau, causam diversos graus de confusão mental cuja dor faz deteriorar a vida interna e externa, mas, podem produzir um acordar que é um estímulo para pensar: desde que se aprenda a pensar a partir da experiência emocional.


Note-se que não se trata de valores morais, ou julgamentos do que é certo e errado, tampouco de lógicas provenientes de determinismo e positivismo, mas de valores éticos que se ampliam na personalidade com os valores estéticos associados pela linguagem de alcance psicanalítico (Chuster, 2023). Ou seja, os psicanalistas não podem de forma alguma conduzir a vida dos seus analisandos, mas, ajudá-los a conduzir de acordo com suas ideias e sentimentos, e, portanto, de saber que sentimentos e ideias são essas. (Bion, 1965, p.53)


As relações entre as duas áreas, a estética, como qualidade dos sentimentos, e a ética como a força das ideias associadas a estes sentimentos, são acolhidos pelo espectro reverie/função alfa, cuja ação transforma em concepções e os conceitos pelos quais se expressa a vida do pensar. Trata-se em resumo de complexidade aplicada à psicanálise com intuito de ampliar a capacidade para pensar.


A sessão que Grotstein relatou, ocorreu no dia posterior à morte súbita de um colega muito próximo, ainda bem jovem, com quem trabalhava. Jim contou que estava muito triste quando chegou à sessão com Bion, e com os olhos marejados de lágrimas, relatou o fato trágico, acrescentando estar se sentindo inibido para escrever o obituário a pedido da família. Também se sentia naquele dia sem vontade de fazer análise. Acrescentou que as palavras não surgiam, e quando ocorriam pareciam apenas senso comum, um falar politicamente correto, ou seja, o que todo mundo esperava que fosse dito.


Bion disse:


Besides a kind of blindness that may come from your tears, call no man happy until he is dead” (Além da espécie de cegueira causada pelas suas lágrimas, não diga que alguém é feliz até estar morto).

A interpretação de Bion lhe causou uma turbulência emocional, surgiram sentimentos de perplexidade e revolta que o fizeram pensar que Bion estava fazendo uma transformação em alucinose, sendo sarcástico e cruel ao elogiar a morte como sendo melhor que a vida, ou sendo cínico a respeito da vida. Foram essas as palavras que conseguiu dizer para Bion.


Bion contestou dizendo:


de forma alguma, seu julgamento ferido pela morte injusta, me transformou em uma pessoa restrita e cruel. Esta frase não é originalmente minha, um dia foi sua, pois você já a trouxe numa sessão. Nesse momento, não sei a quem pertence, a mim, a você, ou a ambos. Não posso decidir sobre isso. No passado foi pronunciada por Sólon, assim relatado por Aristóteles, no início do seu livro sobre a Ética [3] com quem nesse dia você se identificou.

E prosseguiu:


Penso que existe esperança na frase, pois não há sabedoria em fazer julgamentos sobre a vida de uma pessoa baseado em um único incidente, ou mesmo um conjunto de incidentes. Eles podem ser bons ou maus, tristes ou alegres, tem sua razão que lhes é particular, mas não fornecem critérios seguros para termos acesso ao todo de uma vida (das quais são meras partes).

Para obter propriamente um julgamento sobre a vida de uma pessoa precisamos de uma ampla narrativa do início ao fim de uma vida. A morte não nos serve como índice, o nascimento tampouco. São momentos fugazes. Não podemos dizer se uma vida foi genuinamente boa ou má, genuinamente valiosa ou que valeu a pena ser vivida, ou mesmo prazerosa ou horrível, a menos que possamos conhecer o todo.

Nesse dia_ completou Grotstein_ ao sair da sessão, percebeu um dos fatos mais raros em Bion, tanto como analista no consultório, quanto na vida institucional: Bion que sempre estava e se despedia muito sério, disse “see you tomorrow”, com um sorriso.


O relato emocionado igualmente me emocionou, e ficamos um breve tempo em silêncio caminhando, mas, ambos sorríamos. O dia estava claro, a vegetação do campus em seu melhor momento do ano, uma brisa suave soprava, fazendo retomar a conversa em outra direção. 


Nesse ponto, meu trabalho toma duas direções que podem estar relacionadas. A questão do sorriso de Bion, do sorriso de um modo geral, e a possibilidade de dialogar sobre a Ética da Psicanálise através de sua estética interpretativa


Antes, de prosseguir não posso deixar de dizer que Jim Grotstein foi um ser humano exemplar em todos os setores por onde passou. No vínculo que tive com ele, até próximo ao dia de sua morte, houve sempre em nossos diálogos uma sabedoria que me foi transmitida com gentileza e sorriso. Em nenhum momento se pode vê-lo depreciando qualquer ideia; ele exercia a plena consciência de que só podemos acessar aspectos de uma personalidade, que são aspectos de uma realidade última que evoluiu até interceptar a personalidade do observador.


Indo desde 2000 pelo menos três vezes por ano à Los Angeles, na maioria das vezes me encontrei com ele, e se não foi pessoalmente, pelo menos falei por telefone. Havia também uma troca frequente de e-mails desde 1997. No caminho para o embarque de uma dessas viagens, eu recebi uma mensagem de um colega americano, perguntando se eu sabia do agravamento da doença que o faria partir a qualquer momento. Assim que aterrissei em Los Angeles telefonei para ele. Sua secretária atendeu, e informou que ele não estava mais conseguindo falar ao telefone. Consternado, eu apenas me identifiquei. Não sabia o que dizer além disso. Deixei um Hello!


Pensando na música dos Beatles:                               


   I say no, you say Yes You say Stop and I say Go, go, go You say, goodbye and I say hello, hello

Cinco minutos depois, surpreendentemente, ele me liga. Eu notei a voz muito fraca e o esforço para falar, todavia, com humor ele disse: estou em meu leito de morte, mas não podia deixar de falar com você e, então, jocosamente citou Shakespeare em Júlio Cesar: Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez. Desculpe não poder falar muito mais.... Eu me despedi, e com a voz embargada, só pude dizer; thank you for everything you taught me, you’re the Man (Você é o cara). Ele respondeu bem baixinho com humor: don’t spread it out.


Penso que qualquer citação de Shakespeare procura mostrar quais são os efeitos do tempo sobre a humanidade, e como esta pode compreendê-lo e respeitá-lo. A obra Shakesperiana é uma intensa reflexão –no sentido mais profundo- ou seja, uma reflexão em movimento, uma busca trágica da verdade, expressando a simetria entre os sentimentos e a existência de uma mente que busca significados. Como disse Keats, a obra de Shakespeare é a fala de um Man of Achievement sobre o ser humano enfrentando um de seus maiores obstáculos, o tempo, e seus filhotes, a saber: a morte, a memória e a vida. Por isso tornou-se imortal, de um alcance infinito. Acrescento, Guimarães Rosa: a linguagem é uma porta para o infinito.


Inesquecível também foi a vez que Jim me convidou, juntamente com meu colega de Berkeley, John Stone, para irmos jantar no restaurante La Dolce Vita. Jim nos avisou que era um dos preferidos de Frank Sinatra. Sentamos na mesma mesa que Sinatra costumava sentar, onde na parede atrás existe uma placa e um retrato a óleo do cantor, e comemos sua comida e bebida preferidas [4]. Jim, sempre surpreendendo, conhecia Sinatra como poucas pessoas. Nesse dia comentou que uma música cantada por Sinatra tinha muito a ver com a análise; a música é Dancing in the Dark, ele cantarolou a letra:


Dancing in the dark, till the tune ends. We’re dancing in the dark and it soon ends. We´re waltzing in the wonder of why we’re here. Time hurries by and we’re gone. (Dançamos no escuro até que a música pare. Dançamos no escuro e logo tudo termina. Bailamos na indagação do porque estamos aqui. O tempo passa rápido e nós vamos embora [5]). 


Ele acrescentou, na análise podemos ir com a letra até um certo ponto, porém sempre existe um espaço beyond lyrics, que está na composição sonora dos sentimentos, no ritmo em si (frequentemente ele brincava com essa expressão “beyond” ao se referir a Bion). 


Associo o comentário de Grotstein com o que Bion disse (1970, p.97): em qualquer objeto, material ou imaterial, reside a realidade última incognoscível, a coisa em si. Os objetos produzem emanações, ou qualidades emergentes ou características em evolução que quase se impõem como fenômenos a personalidade humana. Destas qualidades a personalidade está sabedora consciente ou inconscientemente; elas diferem da realidade última.  E assim vamos além.


Ou seja, a sabedoria, qualquer que seja ela, surge desta indagação sobre o escuro e o desconhecido de nós mesmos, quando dançamos com nossas mais profundas indagações, e mesmo que o conhecimento nos traga também o inevitável luto e a dor de deixarmos a nós mesmos para trás, ainda assim existe beleza porque existe música na vida, ou uma estética que podemos resgatar. Essa é a estética do sorriso verdadeiro.


Amplio a questão: Quando é que uma pessoa expressa ao sorrir a estética da felicidade do encontro? A razão desta pergunta vem do fato de existirem incontáveis pessoas que são capazes de rir, mas não são capazes de sorrir, como tem muita gente que vive sorrindo porque é politicamente correto, como faz um publicitário, um vendedor de produtos, ou como um jornalista de fachada que dá somente notícias que concordam com suas ideias, ou pessoas que sorriem simplesmente como um disfarce para sua perseguição interna, ou sorriem sem nenhum significado como um movimento do sistema nervoso simpático de contração da musculatura perilabial.


A sabedoria não é um mero acréscimo de conhecimento; a sabedoria é pensamento, e por isso ela pode trazer felicidade_ Nietzsche disse isso (pensar é uma festa) - e felicidade é um sentimento fugaz, pois precisamos seguir pensando, entretanto, no pensar exercemos a liberdade e o direito de buscar a felicidade. Pelo menos assim nos dizem os poetas [6]: 


Tristeza não tem fim. Felicidade sim. A felicidade é como a pluma. Que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve. Mas tem a vida breve. Precisa que haja vento sem parar

Penso que como psicanalista posso situar todas nossas questões no plano das configurações e sofrimentos edípicos, para os quais somente uma linguagem que tenha uma matriz amorosa pela verdade pode alcançar a transcendência necessária, ou seja, no empenho de criar algo novo, vamos tentar resgatar o encantamento da vida. 


Em sintonia com as ideias acima, sugiro que no empenho da poiesis para encontrar uma linguagem de alcance psicanalítico podemos encontrar o analista encantado com seu trabalho.


Nesse ponto, indago se podemos investigar pela psicanálise a experiência de felicidade a partir da sabedoria usando o conceito grego de eudaimonia. Literalmente, a palavra eudaimonia quer dizer “ bom humor”, que longe de ser simplesmente um estado emocional, traduz de uma forma mais acurada a palavra “abençoado”. 


Vou resgatar essa palavra da sua apropriação religiosa, e tentar libertá-la para poder falar livremente sobre a linguagem de alcance psicanalítico que permite a transcendência da configuração edípica. Em outras palavras, o analista precisa estar livre dessas apropriações indébitas de palavras, para poder enfocar no estado mental edípico que reside por detrás.

 

Se um analisando para explicar ou justificar suas dificuldades, usa palavras como abençoado, ou amaldiçoado, se usa correlativos como sorte e azar, se explica com astrologia, magia, bruxaria, espiritismo e mandinga, se fala em orixás, se usa química para explicar dificuldades de relacionamento, etc., podemos mudar para o vértice psicanalítico.


Saliento que nós “modernos” não usamos bem a palavra “abençoado”, pois a tendência imediata é entendê-la relacionada a um ato externo de poder, como é o caso de abençoar como um passe religioso e mágico. Qualquer palavra, insisto, pode ser sequestrada por disciplinas não-psicanalíticas, não importa o quão sofisticadas possam ser, e que acabam muitas vezes a deixando moribunda. Existem, inclusive, sociedades das palavras mortas. 


Na Antiga Grécia, embora o abençoado tivesse ligação com os deuses (dâimones), significando “aprovado pelos deuses”, ou “favorecido por eles”, isso não significava uma vantagem. Pelo contrário, os deuses aprovavam apenas o indivíduo que se empenhava em ser virtuoso, que era adepto da busca de sabedoria, mais corajoso em confessar seu desconhecimento, e que se destacava das preocupações mundanas. Deste modo, o abençoado pelos deuses trazia um compromisso de viver sendo responsável de acordo com a potencialidade que cada um tem. Era de certa forma uma missão na vida, uma direção definida, enquanto se vive em um mundo que o mais comum é o desvio para a inconsequência e a facilidade das explicações simplistas, moralistas e positivistas.


Indago, por coerência do tema, se aquele que se deixa levar pelas facilidades deterministas e moralistas, que rejeita a complexidade, não seria o oposto de abençoado, ou seja, amaldiçoado, ou pelo vértice psicanalítico, um prisioneiro de sua configuração edípica, ou ainda, prisioneiro de sua impossibilidade de transcendê-la pela linguagem.


A responsabilidade assumida pelo abençoado implicava em viver não para buscar a glória, nem para buscar a euforia_ a suprema mestra em produzir com “drogas” a difícil fugaz felicidade_ e nem para alcançar o poder. A busca da euforia, do poder pelo poder, são atos que tem o sentido oposto, o de amaldiçoado, ou aquele que não pode ser consequente consigo próprio. 


Sempre que observamos os fenômenos usando a teoria edípica e suas variações, podemos afirmar que se trata sempre da mais psicanalítica de todas as questões, da origem de toda nossa intuição/imaginação. Certamente, que essa varia de indivíduo para indivíduo, mas, a configuração edípica está presente em qualquer comunicação, qualquer palavra que seja usada.


Aquele que não conseguiu transcender seu destino edípico através do conhecimento de si próprio, aquele que não conseguiu falar de si pela metáfora criativa, mas apenas discursar ao modo descrito por Shakespeare em Macbeth: cheio de som e fúria, querendo dizer absolutamente nada_ este é um amaldiçoado.


O problema de se tornar prisioneiro da configuração edípica está, em suma, em não poder escolher senão dois caminhos (Grotstein), ou seja, sentir-se vítima dos pais com toda razão do mundo para reivindicar direitos e reparações, ou fazer dos país, as vítimas, e ficar negociando por eles limites de reparação e direitos. São duas facetas de um espectro que socialmente se revela nas preferências políticas extremistas e demais fundamentalismos. Esses, se resumem em duas posições, ou se exige reparação para as vítimas o tempo todo mesmo sem saber quem é o responsável, ou se culpa o tempo todo a vítima por não conseguir fazer reparações, criando uma falsa responsabilidade. 


Esse problema aparece nos grupos extremistas da ciência como os neo-dionisíacos e os neo-apolíneos (Holton [7]) (Bion, 1970), que defendem rigidamente posições opostas, aparentemente, brigando entre si, para com isso ficarem mais rígidos e mais cheios de certeza, mas quem acaba sofrendo com o tiroteio de desinformações e ódio ao conhecimento é a maioria que está no meio.


Édipo quando vai ao Oráculo deseja resposta para a pergunta quem sou eu? O Oráculo fazia propaganda de que naquele lugar se encontrava a resposta: colocou no portal os dizeres: conheça-te a ti mesmo. No entanto, a arrogância da pitonisa fornece apenas uma meia resposta, portanto, profere uma meia-verdade, o que nada mais é do que uma boa mentira. Finalmente, diz com o discurso de ódio, cheio de som e fúria, que Édipo é um amaldiçoado, aterrorizando-o e induzindo-o ao destino trágico. O Oráculo rompeu com a Ética do conhecimento humano, guardou para si a verdade.


Exemplos modernos de arrogância travestida de propaganda enganosa (narrativas para fazer valer pontos de vista político) apareceram nos campos de concentração nazistas. A propaganda enganosa exibida no portal de entrada era o trabalho liberta! Claro, que se você trabalhar até morrer, aí você está livre. Mas, infelizmente, esse é apenas um exemplo extremo da propaganda enganosa cotidiana que entope os ouvidos do mundo. Por exemplo, os jornais tradicionais hoje em dia, desinformam, e desinformam a desinformação, para manter o seu famigerado budget vindo de seus patrocinadores


Em diversos trabalhos, tenho procurado discutir a necessidade que o analista tem, sobretudo no mundo de hoje (ou talvez sempre tenha sido assim), de desenvolver uma barreira de contato ética (Chuster, 2020). Essa barreira funciona para o analista metaforicamente como um anjo da guarda (também resgatando essa palavra da religião). Podemos assim dizer que se o analista não é abençoado, o anjo da guarda, a barreira ética, o é, pois ela tem uma relação muito direta com o gênio de Freud.


Diz Bion (1970) que a institucionalização das palavras, das religiões, da psicanálise_ são exemplos especiais de memória institucionalizante, na tentativa de conter a revelação mística e sua força criativa ou destrutiva. Paradoxalmente, a função do grupo é produzir um gênio vis-à-vis a função do Establishment que é cuidar das consequências e absorvê-las, de modo que o grupo não seja destruído.


Uma vez tendo surgido um gênio como Freud, capaz de dar à luz a psicanálise, ele está separado para sempre de todos os demais psicanalistas. Um luto existe pelo reconhecimento que o gênio de Freud não mais existe. Um luto adicional reforça o primeiro pelo fato que não se pode criar outro Freud, não importando o quão essencial ele seja. O Establishment tem então que prover um substituto para o gênio de Freud estabelecendo regras para que as pessoas possam ter e compartilhar conhecimento de psicanálise. Todavia, como conhecimento não é o mesmo que pensar psicanaliticamente, justifica-se o desenvolvimento de uma barreira de contato ética por aquilo que ela permite nos unir a Freud, e por meio dela ter “flashes” de gênio nas sessões.


Se podemos fazer isso o místico ou o gênio fica desmistificado, e podemos avaliar criticamente a incompletude de todo conhecimento psicanalítico. Todo progresso psicanalítico denota a necessidade de mais investigação. Há uma coisa em si que nunca é conhecida (1970). A aceitação desse fato introduz o que chamo de princípio ético-estético de incompletude, consequente ao princípio mais geral de Incerteza.


Em primeiro lugar, a barreira de contato ética nos protege do fato de que uma análise por mais completa que seja, em qualquer ponto guarda uma desproporção entre conhecido e desconhecido. Portanto, a característica de uma sessão é a personalidade desconhecida, e não o que o analista ou o analisando pensam que sabem. A ética da Incerteza mostra a complexidade do campo analítico, começando pela não linearidade da lógica do pensar criativo que nos é demandado.


Em segundo lugar, a barreira de contato ética surge da afirmativa feita pelo gênio de Freud de que todo valor ético e pedagógico da análise repousa na atitude da sinceridade ativa. A sinceridade, ponto gerador da barreira de contato, guia as palavras do analista, que são palavras que podemos chamar de palavras de honra, palavras de valor, de onde inclusive se justificam os honorários. As palavras possuindo capacidade de conter os sofrimentos edípicos constituem o caráter do analista - quanto menos pontos cegos edípicos mais íntegro é o caráter do analista.


O caráter produz coragem, qualidade que se diferencia do ser destemido, e significa a capacidade de admitir o medo de entrar num campo insalubre e perigoso, exigindo prudência nas ações. A coragem produz compaixão, que é a capacidade de entender sem julgar, diagnosticar, e avaliar em nome de fidelidades institucionais. A compaixão produz respeito à vida que produz respeito à verdade. Essa última reforça a sinceridade, assim constituindo o que podemos chamar um movimento complexo de um looping autopoiético (Chuster, 2023).


A melhor forma até hoje conhecida de se lidar com a turbulência emocional é abordá-la com um modelo da complexidade que é o looping autopoiético (a pré-concepção tem esse movimento). Ele traduz o que podemos chamar de ato de fé (outra palavra resgatada por Bion, antes por Nietzsche, da religião). O ato de fé é a busca da criação para atender os limites humanos que são exibidos pelo contato com o desconhecido, sendo que o desconhecido pode levar pela turbulência aos estados pré-catastróficos.


A corrupção das palavras, pela impaciência, pela submersão do sujeito, e pela mutilação do essencial da comunicação, só faz desinformar, e é uma forma de deter a criatividade, congelar as palavras diante do desconhecido, idealizá-las, mistificá-las até que tomem o caminho das mentiras [8].

 

Certamente todos esses aspectos existem desde que o mundo é mundo, e podem ser encontrados na visão ampla do mito de Édipo. Freud, o abençoado, nos mostrou isso. Mas depende de nós psicanalistas adotarmos um vértice espectral incluindo tudo que for possível vindo das tramas de Sófocles, aquele que como Freud, conseguiu ver o Édipo de dentro e de fora de si mesmo, distribuindo esse conhecimento para os humanos.


Bion (1970), diz que certos elementos do desenvolvimento da psicanálise não são novos ou peculiares à psicanálise, mas tem de fato uma história que sugere que eles transcendem raízes de raça, tempo e disciplina, e são inerentes ao relacionamento do místico com o grupo. Em outras palavras, são questões edípicas, tal como Édipo buscando a verdade encontra nas instituições em seu caminho, Oráculo, Laio, Esfinge, cidade de Tebas, o repúdio por sua busca. Teria sido uma benção se a encontrasse na primeira instituição que procurou, o Oráculo, mas foi alvo de uma meia verdade que inclusive o chama de miserável (amaldiçoado pelos deuses), palavras que ele mesmo pronuncia quando vai para o exílio.


O amaldiçoado não tem a proteção da barreira de contato ética, e assim não tem como evitar o seu ódio, nem deixar de ser alvo do ódio dos outros, e assim precisa descarregá-lo em alguém ou no grupo. Afirmo que o rompimento com a ética produz e prolifera sentimentos de culpa, por sua vez responsáveis por atos de destruição e terrorismo, tanto no plano privado quanto público.


 O conceito de eudaimonia é como uma gravidez, tem muitos desdobramentos. Em Aristóteles os desdobramentos aparecem em sua análise de que uma pessoa abençoada precisa mostrar empenho na vida (arête) praticando discernimento moral ou sabedoria em relação as ações práticas (phronesis). Aqui entra uma avaliação de que a verdadeira eudaimonia, o todo de uma vida, quando exposto precisa mostrar que atingiu o mais alto grau de funcionamento correto


Conceitos tais como mãe suficientemente boa podem ter surgido de ventos longínquos soprados por essa visão da ética da qualidade de vida, não deixando de alertar que uma mãe suficientemente boa só pode ser para um momento da vida do filho; os resultados reais da vida de um indivíduo precisam acrescentar a atitude de muitas outras pessoas, cujo papel exercido ao longo de muitos anos mostram que aquela vida está atingindo arête.


Para Aristóteles cada pessoa tem uma potencialidade específica que se constrói no íntimo de seu ser ou singularidade. Essa potencialidade em Bion é a pré-concepção, mas é também a realização, e as concepções e conceitos que consegue dar à luz.


A esse respeito da potencialidade específica (singularidade), e sua importância para a psicanálise, vou mencionar outra experiência que me foi relatada por um analisando de Bion.


Don Marcus em sua primeira entrevista para análise com Bion, deparou-se com um homem cuja seriedade lhe foi incômoda. Havia tido contato com Bion à distância, assistindo suas conferências no Veteran Administration Hospital, mas julgou que a seriedade fosse parte da sua persona institucional. Todavia, veio com a expectativa de encontrar um Bion acolhedor no consultório.


No momento dessa percepção do incômodo lhe passou pelo pensamento estar entrando num campo de batalha cheio de perigos, com pouca possibilidade de sobrevivência [9]. Se sentiu diante de um Senhor da Guerra (warlord). Ocorreu-lhe, diante da tensão provocada pelo sentimento persecutório, descontrair a si próprio contando fatos pitorescos e divertidos sobre seu ambiente familiar. Bion, muito sério, demostrando espanto no olhar, ergueu as sobrancelhas grossas e perguntou se ele estava de algum modo tentando bem impressioná-lo, e se havia algo violento naquele momento que estava tentando ocultar. 


Sem esperar resposta Bion disse; saiba que tendo vivido até hoje, o que inclui ter me envolvido diretamente em duas guerras mundiais, e outras lutas arriscadas em instituições, pouca coisa nessa vida pode me impressionar. Por que procurou análise? Tudo até aqui me parece muito bem com o senhor. Talvez seja melhor o senhor tomar outro rumo. 


Don Marcus [10] disse que ficou perplexo com a captação intuitiva de Bion da batalha que imaginou estar evitando. Mas, acrescentou, foi uma perplexidade encantadora, e disse: Bion trabalhava usando o inconsciente para chegar ao consciente; não era uma questão de tornar consciente o inconsciente, mas de trabalhar na transferência respeitando a comunicação de inconsciente para inconsciente – sempre privilegiando o vínculo.


O princípio tão aristotélico da singularidade implica que não existem pessoas com origem acidental ou por azar do destino. Ao invés disso, cada indivíduo é criado de acordo com o que Aristóteles chamou de telos – um propósito. Somente alguém que busca o at-one-ment, sintonia consigo mesmo, sem se deixar levar pelo splitting que nos atinge a todos desde os primórdios da vida, está atingindo seu telos.... Então, e somente assim, podemos falar de ter acrescentado possibilidades de atingir alguma felicidade, o que já seria uma verdadeira benção para a melhoria da qualidade de vida.


Para terminar cito Bion na Conferência de Paris (julho, 1978):


É muito importante você estar ciente de que jamais ficará satisfeito com a carreira analítica caso você sinta que se restringe ao que estritamente se chama de abordagem “científica”. Há que ter a chance de sentir que a interpretação que você oferece é uma bela interpretação, ou que você obtém uma bela resposta do paciente. Esse elemento estético da beleza faz que uma situação muito difícil se torne tolerável. É sumamente importante ousar pensar ou sentir seja lá o que você sinta ou pense, não importa quão pouco, ou nada, científico isso seja.

Jim e Shirley Gooch, de Los Angeles, narram que no aeroporto, antes de embarcar para Londres, sem o saber a sua última viagem na vida, Bion sorriu e disse: continuem a aventura [11]. 


Espero que os que puderam me escutar até aqui tenham podido compartilhar comigo a minha aventura e o meu encantamento de trabalhar com psicanálise.


Notas


1 Membro Efetivo e Didata da SPRJ, Membro Efetivo do Newport Psychoanalytical Institute, Califórnia, Membro Honorário do Instituto W. Bion, Porto Alegre.


2 No romantismo inglês, os poetas falam que o desenvolvimento do ser humano depende de ideias novas que jamais foram adotadas antes e em sua assimilação gradual. Os cientistas descobrem essas ideias, os artistas as tem por inspiração. Ambos estão corretos, e talvez nem deveríamos, no caso do analista, fazer a distinção entre ciência e arte. O unir-se a Deus seria a busca da verdade, que faz parte de cientistas, artistas e psicanalistas.


3 Vidas não cabem em obituários, vidas são maiores do que eles, não são coleções de traços incidentais ou circunstâncias fugazes; tampouco boas ou más decisões que foram tomadas em um momento ou outro. Assim, para dizer que uma vida valeu a pena ser vivida, necessário é conhecê-la como um todo, e perceber que não existem mais capítulos para se acrescentar. Então, estaremos na posição de saber que tipo de vida foi realmente, se foi alegre ou triste, ou algo mais pensante.


4  Tartar de Atum, caponata de berinjela e amêndoas, gnocchi com almôndegas de vitela, Prosseco.


5 E os que dançam foram considerados insanos por aqueles que não conseguem ouvir a música (Nietzsche).


6  Tom Jobim/Vinicius de Moraes.


7  Holton, Gerard, A Imaginação Científica, Zahar, 1979.


8 Os corrompidos pela fala do corruptor da fala, podem ter euforias, sensações de triunfo típicas da alucinose, todas trazidas pelos confortos fugazes e mundanos de atos, mentiras, e bravatas vazias. Todavia, quem os apoia cai na vala da frustração e da amargura, e pode como vingança apoiar todas as formas perversas de hipocrisia, ódio e racismo.


9 Ele mais tarde admitiu que dados da biografia de Bion na I Guerra Mundial podem tê-lo influenciado a pensar sobre isso. A família de Marcus veio para os Estados Unidos fugindo dos efeitos desta Guerra: fome, desemprego, decadência dos sistemas políticos, desilusão.


10 Comunicação pessoal.


11  Comunicação pessoal.


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